Reza a lenda que Bertrand Russell, pensador inglês que se casou algumas vezes – o que prova que nem sempre a inteligência protege contra reincidências afetivas –, tinha um grande amigo considerado exemplo de racionalidade.

A principal prova dessa racionalidade era simples: mantinha-se solteiro.

Com o passar do tempo, porém, e depois de muita insistência, Russell apresentou o amigo a uma senhora da alta sociedade inglesa, possuidora de excelentes qualidades e, melhor ainda, rica. O amigo, vencido pela conjugação perigosa entre elegância, fortuna e pressão social, pediu a mão da moça em casamento.

Russell, curioso, perguntou:

– Como foi? Ela aceitou?

– Pediu dois dias para pensar. Afinal, é uma dama da alta sociedade, e o recato exige certa demora.

Passados os dois dias, Russell encontrou o amigo no clube onde frequentavam.

– Então? Para quando foi marcado o casamento?

– Não haverá casamento.

– Como assim? Ela recusou?

– Não. Aqueles dois dias salvaram minha vida. Pude pensar com calma, avaliar os prós e os contras, e concluí que casar definitivamente não vale a pena. Desfiz o pedido.

A história é boa demais para depender de comprovação. Algumas anedotas não precisam ser verdadeiras; basta que sejam boas.

Pois bem, nas terras tupiniquins conheci um rapaz de espírito parecido. Racional. Simpático. Inteligente. E, como se não bastasse, torcedor do Flamengo – o que, para mim, é menos preferência esportiva e mais certificado de pertencimento a uma ordem superior da humanidade.

Suas qualidades intelectuais o ajudaram a passar em concursos públicos. Depois, desenvolveu outra habilidade invejável: sobreviver solteiro em meio à chuva de cobranças que caem, como insetos desagradáveis, no seio da própria família, no trabalho, nas festas de aniversário e até em velórios, onde sempre aparece uma tia perguntando, diante do caixão de alguém:

– E você, quando casa?

Aos poucos, foi vendo a turma da escola e da faculdade se casar. Alguns compraram apartamento, outros tiveram filhos, muitos ganharam olheiras definitivas e aquela expressão de quem passou a discutir taxa de condomínio, material escolar e diferenças inconciliáveis na relação.

Ele, não.

Continuava firme.

Firme, mas com uma peculiaridade: não deixava de noivar.

Ninguém nunca entendeu muito bem o motivo. Talvez fosse uma forma socialmente aceita de permanecer solteiro com alguma solenidade. O casamento assusta; o namoro é frágil; o noivado, quando bem administrado, permite usufruir dos benefícios simbólicos do compromisso sem precisar entrar de fato na execução do contrato.

O fato é que houve muitas noivas.

Conheci algumas.

A primeira era uma moça simpática, alegre, expansiva e dona de um problema considerável: não parava de beber. Quando começava, enfileirava cervejas com a disciplina de quem cumpre missão religiosa. Bebia até cair.

O noivado deles foi em minha casa. A festa estava animada, a família contente, os amigos esperançosos, e a noiva, tomada por legítima felicidade, bebeu até perder a capacidade de se locomover com as próprias pernas. Dormiu lá mesmo, em um dos quartos deixados por nossos filhos, que já haviam ido cuidar da vida.

A pergunta vinha dela, dos parentes dela, dos parentes dele e de curiosos em geral:

– Quando é o casório?

Ele sorria, desconversava, contava uma piada, dizia que seria em dezembro.

Nunca informava o ano.

A noiva, quase sempre com boa carga etílica nas veias, acabou não se importando tanto com a imprecisão do calendário. A vida seguiu. E o que ficou claro para todos nós é que o noivo era um sujeito de boas escolhas.

Seguia solteiro.

Depois soube que os porres da noiva começaram a ficar vexatórios, e ele, que precisava de um bom motivo para sair do compromisso sem parecer vilão, encontrou ali sua janela de oportunidade.

Com gravidade moral, comunicou que não poderia levar adiante aquele enlace amoroso. A bebida, explicou, era incompatível com o futuro que imaginava para ambos.

A noiva entrou em desespero. Prometeu abandonar o álcool, frequentar uma igreja pentecostal dessas que surgem como erva daninha em qualquer esquina e entregar sua vida a uma nova disciplina espiritual.

Nada adiantou.

O noivo, irredutível, desfez o compromisso.

Livre outra vez.

A segunda noiva que conheci vinha de uma família numerosa de Goiás. Falava pelos cotovelos, era simpática, tinha energia para organizar um congresso internacional em tarde de domingo e respirava um ar de superioridade que incomodava um pouco.

O noivado também foi em minha casa, mas, na prática, foi ela quem organizou tudo: bolo, salgadinhos, garçons, bebidas, refeição principal, arranjos, circulação de convidados e talvez até a temperatura emocional do ambiente.

Gostava de brilhar.

O noivo, por sua vez, seguia tranquilo, aproveitando a festa com a serenidade de quem assiste ao próprio julgamento sabendo que prescreveu o crime.

De repente, a incômoda pergunta começou a surgir no seio da numerosa família dela:

– Quando vai ser o casório?

Ele, manso, respondia:

– Daqui a dois anos. Preciso comprar uma casa. Não quero começar a vida de casado morando com parentes.

Os parentes, naturalmente, ofereceram moradia temporária. Apressaram-se a dizer que isso não seria problema. Desde que se casassem, claro.

Passaram-se os dois anos.

Nada.

– Não deu – explicou ele. – Como vocês sabem, a inflação comeu minha poupança. Preciso de mais um tempo para juntar dinheiro.

– Então quando será?

– Com certeza em dezembro.

Mais uma vez, dezembro.

O mês sem ano.

A noiva, porém, não lhe dava motivo algum para fuga. Era atenciosa, presente, cuidadosa. Também era controladora. E, como o noivado já vinha de longa data, tinha acesso à casa dele, às gavetas, à rotina e, pelo visto, aos comprovantes de despesa.

Certa manhã, depois de uma noite em que ele comemorara intensamente mais um campeonato nacional do Mengão, a noiva invadiu seu descanso segurando um pedaço desgraçado de papel.

Apontou o documento na direção do nariz dele:

– Que conta é essa de seiscentos e cinquenta reais em um tal de Fantasy Motel?

Ele, ainda meio tonto, tentou reunir os neurônios sobreviventes da celebração rubro-negra.

– Que diabos é isso, mulher? Não estou entendendo nada.

Ela estava estranhamente calma. A calma dos justos, dos traídos ou dos fiscais da Receita quando já encontraram o lançamento errado.

– Pois você vai entender. Encontrei, nos comprovantes que estavam em sua carteira, uma despesa de seiscentos e cinquenta reais no Fantasy Motel. Eu não estava lá. Acho que é aquele famoso caso de batom na cueca.

Aos poucos, ele foi lembrando da noitada.

A noiva, realmente, não estava.

Nem poderia estar.

Tamanha havia sido a esbórnia.

Procurando juntar uns restos de dignidade, declarou:

– Não sei do que se trata, mas deve haver uma explicação razoável para esse documento estar aqui sem que eu tenha ido lá.

A frase, convenhamos, não ajudava.

Pensou um pouco mais e resolveu trocar a defesa impossível pelo ataque moral:

– Também, você entra na minha casa sem eu saber, mexe nas minhas coisas… isso não está certo. É invasão de privacidade!

Falava com o rosto vermelho, de quem já tinha a palavra “culpado” esculpida na testa em letras luminosas.

A noiva olhou para ele, respirou fundo, bateu a porta do quarto com força e saiu.

Deixou para trás um noivo assustado.

Mas, sobretudo, aliviado.

Finalmente, o compromisso estava desfeito. E o melhor: por iniciativa dela. Ele nem precisou arquitetar motivo, produzir incompatibilidade filosófica ou invocar dezembro sem ano.

Livre outra vez.

O curioso é que, algum tempo depois, a moça tentou uma reaproximação, com ares de arrependida. Vá entender o coração humano, esse departamento sem ouvidoria.

Ele, agora já com motivo em riste, recusava todas as tentativas:

— Não dá. Você é muito ciumenta.

Ciumenta?

O homem fora flagrado por um recibo de motel e saiu do episódio com a tese de que a culpa era da fiscalização excessiva.

Depois dela, outras surgiram. O roteiro era parecido: namoro, encantamento, noivado, festa, promessas, perguntas familiares e um dezembro abstrato no horizonte.

Aos poucos, as noivas passaram a ser apelidadas, entre nós, de Ethan Hunt, o agente de Missão Impossível, personagem vivido por Tom Cruise. A missão de casar com nosso amigo parecia realmente impossível.

E o noivo demonstrava senso de oportunidade invejável.

Nós, seus amigos casados havia muito tempo, nutríamos secretamente uma pontinha de inveja. Não confessávamos, claro. Homem casado antigo não admite certas fraquezas em público. Mas a verdade é que ele parecia irritantemente feliz.

Tinha casa, salário, liberdade, futebol, amigos, viagens, controle remoto soberano e a rara possibilidade de comprar um objeto inútil sem precisar justificar a aquisição diante de um inquisidor doméstico.

A vida dele parecia simples.

O problema foi o tempo.

O tempo é esse sujeito sem educação que entra na sala, senta-se no sofá e começa a mexer em tudo. Rareia os cabelos, engrossa a cintura, aumenta o grau dos óculos, tira a elasticidade das certezas e, quando a pessoa percebe, já não é mais o jovem promissor, mas o solteirão observado com curiosidade pela família.

O noivo, muito vaidoso, começou a se preocupar.

Não apenas com a aparência. Também com os comentários.

Vinha de família nordestina, e os mexericos começaram a circular com aquela delicadeza própria das reuniões familiares:

– Como pode? Um rapaz formado, nessa idade, ainda não casou?

Outro acrescentava:

– Sei não… aí tem coisa.

“Aí tem coisa” é uma das frases mais perigosas da língua portuguesa. Não esclarece nada, mas autoriza todas as suspeitas.

Foi nesse cenário que surgiu Joana.

Bela morena, curvas bem delineadas, olhar decidido e temperamento resoluto. Quando a conheci, notei nela um brilho diferente. Não era apenas encanto. Era força estratégica.

Joana não parecia entrar em relacionamento. Parecia assumir operação militar.

Com ela, o roteiro mudou.

Primeiro, o noivado não foi em minha casa. Mau sinal. Eu havia me tornado, sem perceber, uma espécie de cartório informal dos compromissos sem consequência. Quando o ritual saiu da minha jurisdição, percebi que algo mais sério estava acontecendo.

Depois, notei o olhar do noivo.

Estava diferente.

Havia nele uma espécie de hipnose resignada, como se a razão ainda estivesse sentada à mesa, mas o coração já tivesse vendido os móveis.

Comecei a pegá-lo pelos cantos dizendo coisas estranhas:

– Pois é, chega uma hora em que o homem precisa se aquietar, constituir família, ter filhos…

Eureka!

Joana tinha laçado o cabra.

Ou quase.

O noivado aconteceu, mas o casamento, como de costume, não saía. Quando perguntávamos a data, veio novamente a velha fórmula:

– Em dezembro.

Era o último refúgio.

Mas dessa vez havia algo diferente. A palavra já não soava como fuga; parecia adiamento de condenado que sabe que a sentença será cumprida.

Dentro dele, travava-se uma guerra silenciosa. De um lado, a razão antiga, experiente, sobrevivente de várias noivas e muitas cobranças. Do outro, alguma coisa mais perigosa: afeto verdadeiro.

E a razão, tão eficiente durante anos, começou a perder terreno.

Não deu outra.

Casou-se.

E não me convidou para a cerimônia.

Talvez temesse que eu aparecesse com um discurso inconveniente, lembrando noivas anteriores, dezembros sem ano e comprovantes de motel. Talvez Joana, mulher inteligente, tenha preferido evitar testemunhas do desaprovador arquivo histórico.

Fez bem.

Há ocasiões em que a memória dos amigos representa ameaça.

O fato é que ele se casou.

E, contra todas as previsões de nossa pequena torcida de observadores maldosos, parece feliz.

Mas a felicidade dele não é apenas a vitória de Joana, nem a derrota do velho solteiro. É algo mais interessante.

Durante anos, ele confundiu liberdade com ausência de laços. E talvez todos nós façamos isso em alguma medida. Imaginamos que ser livre é não dever explicações, não dividir armário, não negociar horários, não ceder espaço na cama, não ouvir perguntas incômodas sobre recibos esquecidos na carteira.

Há uma liberdade nisso, sem dúvida.

Mas há também uma solidão bem disfarçada, que só aparece quando o tempo começa a retirar os enfeites da juventude.

Casar-se, quando dá certo, não é exatamente perder a liberdade. É trocar a liberdade solta, vasta e meio vazia, por uma liberdade menor, mais trabalhosa, porém habitada. Com vida.

É claro que nem sempre funciona. Às vezes vira repartição, tribunal, campo de batalha ou reunião permanente de condomínio afetivo. Mas, quando há afeto, paciência e algum senso de humor, o casamento deixa de ser prisão e se torna abrigo. É um projeto que vale a pena.

O noivo talvez tenha descoberto isso tarde.

Ou talvez tenha descoberto na hora certa.

Porque há homens que precisam fugir de várias mulheres para, enfim, encontrar aquela de quem não conseguem mais fugir.

Hoje, quando penso nele, lembro do amigo racional de Bertrand Russell, salvo pelos dois dias de reflexão. O nosso noivo brasileiro levou décadas refletindo. Pesou prós e contras, escapou de armadilhas, sobreviveu a porres alheios, famílias numerosas, inspeções de carteira e dezembros indeterminados.

No fim, casou-se.

Não sei se perdeu a razão.

Talvez apenas tenha encontrado uma razão melhor.

(*) Baseado em fatos

Primeiro, deixem que eu me apresente: meu nome é Pipoca.

Sou fêmea da raça Boxer. Branca, grande, de pelos curtos, expressão séria e coração mole. Dessas cadelas que assustam na primeira olhada e, cinco minutos depois, estão tentando lamber a alma da visita.

Se vocês procurarem no Google – esse oráculo moderno onde os humanos confirmam até o que já sabem – verão que minha raça tem temperamento enérgico, adora crianças, conserva espírito de filhote por bastante tempo e, de quebra, protege a família.

Tudo verdade.

Também descobrirão que vivemos, em média, de oito a doze anos, precisamos de exercício e temos certa predisposição para problemas cardíacos. No meu caso, desconfio que essa parte piorou consideravelmente depois do episódio que vou contar mais adiante.

Minha raça tem origem europeia – sou chique, apesar de comer ração no chão –, mais precisamente na Alemanha, no final do século XIX. Descendemos do extinto Bullenbeisser, cão de caça usado para segurar animais grandes, como ursos e javalis, cruzado com Bulldogs ingleses e mastins.

Não sei exatamente o que é um javali, mas, pelo tom com que os humanos falam, deve ser uma espécie de porco com mau caráter.

Com o tempo, nós, Boxers, fomos mudando de função. Primeiro, ajudávamos criadores de gado. Depois, viramos cães de trabalho, cães de polícia – parte da biografia da raça sobre a qual prefiro não me alongar – e, finalmente, cães de companhia.

Eu, particularmente, pulei as fases heroicas e fiquei com a melhor parte: sofá, carinho, cama, restos ocasionais de churrasco e a missão sagrada de demonstrar amor de maneira exagerada.

Nasci no Ceará, numa ninhada de onze irmãos. Fui escolhida porque era mais brincalhona do que os outros. Minha tutora olhou para mim e deve ter pensado:

– Essa aqui parece alegre.

Acertou.

Diferentemente dos humanos, que passam a vida inteira tentando descobrir quem são, nós, cães, já nascemos com boa parte da resposta pronta. Sartre, se tivesse convivido mais conosco, talvez tivesse sacado mais facilmente aquela história de essência e existência. No caso dos cães, a essência já vem abanando o rabo.

Minha essência, moldada por séculos de convivência com humanos, é simples: amar meus tutores, protegê-los, lambê-los sempre que possível, recebê-los como se voltassem de uma guerra mesmo quando apenas desceram para comprar pão, e alegrar a casa em troca de comida, abrigo e alguns cuidados básicos.

Não me parece má negociação.

Há, porém, um código antigo entre nós, cães domesticados: não se morde tutor. E, principalmente, não se morde filhote de tutor.

Nem de brincadeira.

Esse comando vem escrito em alguma parte muito séria do nosso DNA. Um cão pode latir, rosnar, correr atrás de bola, destruir chinelo, encarar aspirador de pó como inimigo mitológico, mas não deve morder criança da família. Se morde, passa a ser olhado com desconfiança. E, dependendo do lugar, pode acabar virando história triste – ou linguiça, o que é pior, porque nem história vira.

Eu sempre respeitei esse código.

Recebo afagos, mas confesso que dou trabalho. Deixo pelos pela casa, produzo sujeiras escatológicas diárias, derrubo água, arrasto panos, entro onde não devia e, ocasionalmente, espalho pelo chão objetos que os humanos insistem em guardar em ordem.

Eles limpam tudo com paciência. Nunca entendi bem essa disposição. Se eu tivesse que limpar a sujeira deles, certamente latiria mais.

Meus tutores são pessoas maravilhosas. Fazem carinho em mim o tempo todo, conversam comigo como se eu entendesse as complicações emocionais de uma espécie que chora vendo comercial de margarina e briga por controle remoto, e ainda permitem que eu suba na cama.

Paraíso canino, se existe, deve ser isso: dormir espremida entre dois humanos resignados, ocupando noventa por cento do colchão e deixando para eles apenas a beirada moral da existência.

Os filhos dos meus tutores também são doces comigo. Cresci cercada de gente que me tratava com cuidado, riso e mão aberta. Para mim, todos os filhotes humanos eram criaturas meio desajeitadas, barulhentas, mas essencialmente boas.

Até que chegaram os filhotes dos filhotes.

Um dos filhos dos meus tutores teve dois meninos. E foi aí que começou minha sina.

Não me entendam mal. Crianças são encantadoras. Têm cheiro de leite, biscoito, chão e mistério. Andam sem muita coordenação, falam palavras que nem sempre obedecem à lógica e carregam nas mãos uma energia perigosa. São capazes de fazer carinho, puxar orelha, rir, gritar, abraçar e enfiar o dedo no olho do cachorro, tudo dentro do mesmo minuto e com a inocência de quem está apenas descobrindo o mundo.

Eu gostava deles.

Especialmente do mais novo.

Era um menino de olhos acesos, inteligentes, curiosos. Olhava para mim com uma admiração intensa. No começo, achei bonito. Depois, passei a desconfiar que aquele interesse talvez fosse excessivo. Havia nele uma espécie de fascínio investigativo, como se eu fosse, ao mesmo tempo, bicho de estimação, brinquedo, almofada, instrumento musical e alimento experimental.

Ainda assim, mantive a compostura.

Naquele dia, eu estava ao pé da porta de entrada da casa, como sempre fazia quando ouvia movimento. Para nós, cães, campainha, chave na fechadura e passos conhecidos equivalem à chegada de uma delegação estrangeira. É preciso recepcionar com entusiasmo.

Comecei meu ritual: latidos breves, rabo balançando, orelhas levantadas, corpo inteiro tremendo de alegria. Quem nunca viu um Boxer feliz talvez não compreenda: não abanamos apenas o rabo; abanamos a existência.

Os filhotes dos filhotes chegaram.

Aproximei-me com o coração cheio de júbilo canino. Dei voltas, farejei, bati as patas no chão, ofereci meu focinho ao afeto.

Foi quando o mais novo se aproximou.

Segurou minha cabeça com as duas mãos e colou seu rosto ao meu.

Achei que fosse um beijo.

Meu coração se derreteu. Pensei, com a ternura que Deus deu aos cães e negou a alguns parentes humanos:

– Que lindo. Ele me ama.

O amor, como se sabe, às vezes engana.

De repente, senti uma dor profunda no beiço inferior.

Uma dor aguda, inesperada, humilhante. Dessas que não combinam com a ordem natural das coisas.

O menino havia me mordido.

Sim.

Mordido.

Com vontade, convicção e método.

No primeiro instante, não compreendi. Fiquei paralisada, tentando organizar os fatos. Cachorro morder menino eu já tinha ouvido falar, embora sempre me parecesse uma péssima ideia. Mas menino morder cachorro era novidade. E, pela violência do gesto, não se tratava de experimento filosófico. Era dentada mesmo.

Senti o gosto do susto.

E vi sangue.

Meu sangue.

Por puro instinto, levantei a pata dianteira direita para afastá-lo, com delicadeza, como quem diz:

– Jovem mamífero, respeitemos os limites da convivência.

Foi meu segundo erro.

Ele mordeu minha pata.

Ali percebi que não estava diante de uma criança. Estava diante de um predador em fase de dentição.

Foi um Deus-nos-acuda.

Saí correndo pela casa com a dignidade despedaçada, o beiço dolorido e a pata latejando. Ouvi vozes humanas atrás de mim:

– Meu Deus, ele está com a boca cheia de pelos!

Eram meus pelos.

Aquela frase me abalou profundamente. Até então, eu imaginava que pelos caíssem por causas naturais, como velhice, calor ou sofá escuro. Não por mastigação infantil.

Corri para debaixo da cama dos meus tutores, lugar sagrado de proteção, esconderijo oficial dos cães injustiçados, dos chinelos culpados e dos medos que ninguém explica.

Lá fiquei.

Tremendo.

Não de frio. De perplexidade.

Minha tutora, uma santa mulher, apareceu com algodão, gaze, pomada e outros apetrechos de socorro que os humanos guardam para emergências. Chamava-me com voz doce:

– Pipoca, vem cá, minha filha. Deixa eu ver.

Minha filha.

Naquele momento, ouvi aquilo como título de nobreza.

Saí devagar, desconfiada do mundo. Ela limpou meu beiço, examinou minha pata, passou remédio, enfaixou o ferimento e me acariciou com a delicadeza de quem sabe que até os animais têm sustos que não cabem no corpo.

Enquanto isso, os humanos comentavam o ocorrido com aquela mistura de preocupação e riso contido que tanto me ofende. Um deles dizia:

– Mas como é que pode? O menino mordeu o cachorro!

Pois podia.

Podia tanto que a mordida estava em mim.

O menino, ao contrário, parecia satisfeito com a própria contribuição para a zoologia doméstica. Tinha no rosto uma calma científica, como se tivesse apenas testado a resistência do material.

Depois do curativo, permaneci no quarto, sem coragem de sair. A casa, antes território de segurança, agora parecia cheia de armadilhas dentárias.

Foi então que ele apareceu na porta.

O pequeno mordedor.

Vi seus olhos acesos.

Vi sua boca.

Sobretudo, vi seus dentes.

Não esperei explicações. Dei um salto, passei pela janela baixa que dava para a área externa e fugi com pata enfaixada e tudo, num movimento que teria orgulhado meus ancestrais alemães, especialmente aqueles encarregados de enfrentar javalis.

Só que, no meu caso, o javali usava fralda.

Levei algum tempo para recuperar a confiança. A ferida sarou. O beiço desinchou. A pata voltou ao normal. Mas confesso: nunca mais olhei para crianças pequenas da mesma forma.

Passei a adotar distância prudente.

Quando os filhotes dos filhotes chegavam, eu ainda abanava o rabo, por educação e fidelidade à raça. Mas deixava entre nós um espaço estratégico, desses que os diplomatas chamariam de zona de segurança.

O menino cresceu. Provavelmente esqueceu o episódio. Crianças esquecem com facilidade as próprias barbaridades. Nós, cães, nem tanto. Temos memória afetiva. E, em alguns casos, memória odontológica.

Com o tempo, perdoei.

Cães perdoam. Essa é uma de nossas virtudes e, talvez, uma de nossas fraquezas. Perdoamos atrasos, broncas injustas, banhos desnecessários, consultas veterinárias que odiamos, laços ridículos no pescoço e até a palavra “não” dita em tom dramático quando tudo que queríamos era apenas um pedaço de frango deixado em lugar acessível.

Perdoei o menino. De verdade.

Mas perdoar não significa esquecer. Significa apenas continuar amando com um olho aberto.

Afinal, já vi cachorro morder menino virar notícia, conversa de vizinho, advertência de família e, em casos extremos, processo.

Mas menino morder cachorro?

Isso não vira boletim de ocorrência.

Vira conto.

E, convenhamos, alguma utilidade literária aquela dentada precisava ter.

(*) Baseado em fatos

No caminhar da minha longa estrada – expressão que uso com algum cuidado, porque, depois de certa idade, qualquer caminhada já começa a parecer inventário – ouvi muitas vezes a velha sentença:

– Meu santo não bate com o de fulano.

Ou, em sua versão menos diplomática:

– Não vou com a cara desse sujeito!

A segunda é mais honesta. A primeira, mais brasileira. Em vez de admitir a antipatia pura e simples, convoca-se logo o mundo espiritual, como se a culpa fosse de entidades superiores ocupadíssimas em administrar implicâncias de corredor, reunião de condomínio ou ambiente de trabalho.

Fiz uma pesquisa rasa – dessas que não dão autoridade a ninguém, mas ajudam a sustentar uma conversa – e descobri que a expressão provavelmente vem das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Nesse universo, “santo” pode ser usado como sinônimo popular de orixá, guia, força espiritual que acompanha uma pessoa.

Quando os santos de duas criaturas não se harmonizam, a convivência emperra.

Com o tempo, a expressão saiu do terreiro, atravessou a rua, entrou nas casas, nos escritórios, nos casamentos, nos grupos de WhatsApp e passou a explicar qualquer antipatia imediata. A pessoa olha para a outra e pronto: o santo não bateu. Não houve conversa, não houve análise, não houve contraditório. O processo nasceu julgado.

Também li, em uma revista de boa reputação científica, que certas antipatias instantâneas podem nascer de experiências antigas, algumas ainda da infância remota, anteriores à fala. A gente gravaria, sem saber, um rosto, um gesto, uma voz ou uma expressão ligados a algum desconforto. Anos depois, encontra alguém parecido e o corpo avisa antes da razão:

– Cuidado. Esse aí tem cara de problema antigo.

Pode ser.

Mas desconfio que haja também uma explicação mais simples e menos científica: a harmonia dos traços ajuda. Nos filmes, nas novelas e nas propagandas, os bonitinhos costumam ficar do lado do bem. Os vilões, salvo exceções charmosas, vêm sempre com alguma sombra no rosto, uma sobrancelha mal-intencionada ou um maxilar incompatível com a paz mundial.

Nesse quesito, parto em desvantagem.

Minha mãe foi artista plástica. Com as mãos, produziu obras de beleza estética impecável. Mas, como não controlava as entranhas, não conseguiu repetir o mesmo êxito na fabricação deste que vos escreve. Saí com uma cara resultante da soma do Brasil: um pouco de índio, um pouco de negro, um pouco de europeu e um tanto de improviso genético. Mistura assim raramente produz padrão suíço de beleza.

Nunca me incomodei muito com isso. Afinal, ninguém escolhe o próprio nariz em catálogo.

Mas há pessoas que se incomodam.

E algumas se incomodam antes mesmo que eu abra a boca. Talvez olhem para mim e sintam que meu rosto lhes traz uma lembrança ruim. Talvez vejam seriedade onde existe apenas distração. Talvez confundam silêncio com arrogância. Ou talvez, hipótese sempre possível, o santo delas acorde mal-humorado justamente no dia em que cruza comigo.

O curioso é que eu mesmo nunca percebo isso de saída. Para mim, gente é gente. Com santo, sem santo, com guia, sem guia, com orixá ou com mau humor acumulado no carnê vencido.

No trabalho, porém, vários santos não bateram com o meu pobre santo. Inexplicavelmente, mais santos femininos que masculinos. Talvez as mulheres sejam mais sensíveis. Talvez seus santos sejam mais atuantes. Ou talvez eu tenha passado pela vida com uma expressão facial que certas almas interpretavam como boletim de ocorrência.

Houve casos em que o santo deixou de bater com motivo.

Nos tempos em que fui controlador de voo, um colega resolveu aproveitar um cargo de representante da turma para faturar passagens aéreas indevidas. Denunciei. Nesse caso, admito, não foi antipatia gratuita. O santo dele não bateu com o meu porque o meu, naquele dia, compareceu armado de regulamento.

Mas há episódios mais misteriosos.

Certa vez, em outro emprego, eu atravessava um corredor apressado, com a cabeça cheia de problemas, quando uma colega – cujo santo já vinha atravessado com o meu havia algum tempo – disparou:

– Você só faz o que quer!

Parei por dentro, embora tenha continuado andando por fora.

A frase me deixou perplexo. Primeiro, porque até hoje não sei exatamente o que quero. Faço várias coisas ao mesmo tempo, mudo de assunto, começo projetos, leio livros diferentes, escrevo, trabalho, penso, desisto, volto. Se alguém soubesse com tanta certeza o que eu quero, eu ficaria grato pela informação.

Quase perguntei:

– Minha senhora, a senhora poderia me explicar? Isso talvez aliviasse bastante minha vida.

Não perguntei.

A prudência, essa senhora antiga, puxou-me pelo braço.

Também fiquei pensando no que ela teria a ver com o assunto. Mas, como algumas perguntas apenas aumentam a desordem do mundo, deixei para lá.

Mais um santo que não cruzou.

Há, felizmente, o fenômeno inverso: o santo começa não batendo e depois, com o tempo, toma jeito. Já ouvi várias confissões desse tipo:

– No começo eu não ia muito com sua cara. Achava você sério demais. Mas depois que conheci, passei a gostar.

É o cruzamento tardio de santos.

Demora, mas vale.

O problema talvez esteja mesmo na embalagem. Eu não sou muito de rir à toa. Não saio por aí cantarolando com os olhos perdidos no horizonte, como certas pessoas iluminadas que parecem ter recebido, no café da manhã, uma mensagem particular da felicidade, vinda do além.

Tenho inveja delas.

Não consigo.

Meu rosto, em repouso, talvez pareça estar avaliando uma escritura pública com cláusula mal redigida. E isso, reconheço, não ajuda a conquistar simpatias imediatas.

Sorrir por estratégia também nunca me pareceu boa solução. Há sorrisos que abrem portas. O meu, quando forçado, provavelmente levantaria suspeitas. A pessoa pensaria:

– Pronto. Depois de sério, agora ficou perigoso.

Com o tempo, aprendi que não adianta muito tentar convencer todos os santos da vizinhança. Alguns simplesmente não batem. Outros batem tarde. Outros batem uma vez e nunca mais. E há os raros, preciosos, que batem firme desde o primeiro encontro e continuam batendo pela vida inteira.

Esses são os que importam.

Tenho amizades antigas, sólidas, dessas que não precisam de explicação nem de manutenção diária. Gente que compreende meus silêncios, tolera minhas seriedades, ri das minhas implicâncias e das minhas piadas sem graça e permanece. Isso, depois de certa idade, vale mais do que aprovação pública, simpatia instantânea ou qualquer esforço desesperado para parecer agradável.

Tenho também meus irmãos.

No caso deles, é verdade, os santos foram praticamente obrigados a bater desde o nascimento. Foram colocados na mesma família, dividiram histórias, perdas, alegrias, sustos, mesas, heranças emocionais e lembranças que ninguém de fora consegue entender por inteiro.

Mas o bonito é que continuam batendo.

Não por obrigação. Por afeto.

E há ainda aqueles encontros esporádicos em que, sem perceber, a gente faz alguma coisa aparentemente pequena e descobre depois que aquilo ajudou alguém a atravessar um trecho difícil da vida. Um gesto, uma palavra, uma providência, um cuidado mínimo. Para quem faz, quase nada. Para quem recebe, talvez tudo.

Nesses casos, tenho a impressão de que os santos não apenas batem.

Eles se reconhecem e se abraçam.

Talvez seja essa a melhor parte da história. Não importa muito se alguns santos passam por mim de cara fechada, fingindo que não me viram. A vida, generosa em suas contradições, compensa com outros que chegam, encostam, ficam e ajudam a justificar essa passagem breve por este planeta maluco.

No fim das contas, talvez ninguém precise que todos os santos batam.

Basta que alguns batam direito.

Dois anos mais novo que eu, Robinho já nasceu em desvantagem: veio ao mundo com apenas sete meses de gestação, sem completar o tempo esperado. Como uma espécie de carma inaugural, parecia destinado a não completar quase nada.

Minhas tias contavam que, franzino, cabia numa caixa de sapatos, com folga. Franzino nasceu, franzino permaneceu. Quem olhava para ele tinha a impressão de que faltava alguma coisa além do peso. Talvez juízo. Talvez chão. Talvez destino.

Não completou nem a amamentação. Sua mãe, muito jovem, teve a má sorte – ou a má pontaria afetiva – de casar-se com o único dos três irmãos de minha mãe que era artista de verdade. Desses artistas que levam a vida como se o mundo fosse acabar naquela tarde e, antes disso, fosse obrigação moral aproveitar cada minuto. O problema é que “aproveitar a vida”, nesse caso, significava não ter compromisso algum com questões desagradáveis como aluguel, energia, água, impostos e outras invenções da civilização que infernizam a existência, mas sustentam minimamente uma casa.

Meu tio desenhava muito bem. Era talentoso, simpático, querido por todos nós, seus sobrinhos. Mas tinha com a realidade uma relação apenas eventual.

Logo que recebeu o primeiro pagamento por seus bons trabalhos de desenho, fez o que qualquer homem responsável, casado e pai recente faria segundo a lógica dele: deu entrada no financiamento de uma Lambretta. Como não tinha crédito, pôs o contrato em nome da mãe, minha avó.

A Lambretta era seu sonho de consumo. Nela estavam o vento no rosto, a aventura, a sonhada liberdade. Compromisso? Só com o prazer de viver.

As parcelas, evidentemente, ficaram para depois. E o “depois”, na vida de certos artistas, é um país onde ninguém jamais desembarca.

Diante daquele conjunto de irresponsabilidade, confusão doméstica e poesia mal aplicada, a mãe de Robinho seguiu o roteiro dos folhetins de terceira categoria: fugiu pelo mundo com um vendedor de enciclopédias muito simpático e, ao que parece, mais disposto a pagar contas.

Nem é preciso dizer que meu tio não tinha estrutura para criar o menino. Robinho acabou sendo acolhido pela avó e por uma tia solteira, dessas mulheres que não tiveram vocação para o casamento, mas desenvolveram, em compensação, uma capacidade quase ilimitada de cuidar dos estragos alheios.

Criaram-no com carinho. Talvez carinho demais. Robinho virou o coitadinho oficial da família. E, para ser justo, havia motivos para isso.

Quanto ao pai, ganhou para sempre o apelido carinhoso de tio Lambretinha. Como era previsível, não pagou as demais parcelas do financiamento da Lambretta, que estavam no nome da mãe. A liberdade, às vezes, chega em duas rodas; a prestação, em forma de carnê.

Esse conjunto de fatores começou a produzir em Robinho uma fuga permanente da realidade. Com o passar dos anos, tornou-se um menino falante, criador de fantasias que não convenciam ninguém, mas que, dentro de sua cabeça, pareciam sólidas como escritura pública.

Um caso ilustra bem.

Meu velho pai, com uma sabedoria que talvez viesse do sofrimento e da observação, adotou métodos criativos para nossa educação. Um deles foi me incentivar a fabricar meus próprios brinquedos. Em vez de comprá-los prontos, comprava ferramentas, madeiras, latas, pregos e o que fosse necessário para que eu construísse alguma coisa.

Assim, latas de óleo cortadas com cuidado e pedaços de madeira viravam caminhões de brinquedo. Tábuas se transformavam em carrinhos. Tampinhas ganhavam função mecânica. De quebra, tornei-me o conserta-tudo da casa.

Meu pai sabia o que fazia. Sem discurso, ensinava que o mundo melhora quando a gente aprende a apertar os próprios parafusos.

Pois Robinho foi nos visitar, conheceu minha pequena oficina improvisada nos fundos de casa e ficou fascinado. Ao voltar para a casa da avó, não sossegou até que ela comprasse ferramentas, materiais, apetrechos e outros mimos, todos de primeira qualidade. Como não havia automóvel na casa, a garagem inteira foi transformada em oficina.

Faltava apenas inaugurá-la.

Robinho, que gostava de aparecer, separou uma tábua grande e, com uma talhadeira, gravou em baixo-relevo o nome de seu glorioso empreendimento:

– Oficina Modess.

Ele assistia às propagandas do absorvente feminino na televisão e não fazia a menor ideia de sua utilidade. Mas gostava do nome. Achava bonito, moderno, sonoro. Para ele, “Modess” tinha qualquer coisa de oficina internacional.

A família inteira caiu na troça.

Meu irmão mais velho, menos paciente do que eu e sempre disposto a trocar gracejos com Robinho, não perdoou:

– Vou fazer anúncio na rádio local: “Se você está naqueles dias, procure a Oficina Modess. Nada como um sujeito tapado para tapar qualquer outra coisa”.

Robinho ficou um tempo sem entender a extensão do desastre publicitário. Até que alguém, movido por piedade ou crueldade pedagógica, explicou para que servia o tal Modess.

O fato é que a Oficina Modess nunca funcionou. Robinho não pregou um prego na parede. Não consertou uma fechadura. Não fabricou um carrinho. Sua grande obra foi a placa – e mesmo essa, convenhamos, tinha problemas de posicionamento mercadológico.

Com o tempo, desenvolveu uma característica interessante: era bom de lábia. Sabia convencer. Pena não ter seguido a carreira de vendedor. O problema é que vendedor precisa acordar cedo, pegar ônibus, cumprir meta e ouvir desaforo de cliente sem perder o sorriso. Hoje, algum especialista de palestra talvez dissesse que Robinho não tinha “perfil psicossocial aderente à função”. Naquele tempo, a família usava diagnósticos menos sofisticados.

Na adolescência, dizia estar sempre namorando alguém que ninguém via, ninguém conhecia e ninguém conseguia localizar no mundo sensível. Sustentava as histórias com riqueza de detalhes digna de inquérito do Ministério Público Federal.

Meu irmão, novamente ferino, dizia:

– Ele está namorando Ângela. Mas, no dia em que ela descobrir, acaba o namoro.

Por algum milagre que nunca compreendi – talvez financeiro, talvez espiritual, talvez fruto da generosidade da tia solteira – Robinho concluiu o ensino fundamental e o médio. Estava pronto para o vestibular.

Tentou várias faculdades. Públicas e privadas. Não passou em nenhuma.

Um conhecido nosso, que teve a má sorte de fazer uma das provas na mesma sala, contou que estava concentrado quando Robinho tocou em seu ombro e sussurrou:

– Qual é a resposta da questão 21?

– Estou na dúvida — respondeu o rapaz.

Robinho não se abalou:

– Não faz mal. Diga qual opção você marcou. Mais vale uma dúvida sua do que uma certeza minha.

Era uma frase brilhante. Pena que, no caso dele, servisse para quase tudo na vida.

Depois de bater cabeça aqui e ali, já adulto, tomou uma decisão firme:

– Vou para a Bahia fazer um mergulho espiritual e encontrar meu caminho.

Foi esse o belo discurso apresentado à tia e à avó, como se aquilo não fosse apenas mais um desatino entre tantos. Robinho já estava consolidado no grupo nem-nem: nem estudava, nem trabalhava. Mas agora, ao menos, acrescentava uma dimensão mística à improdutividade.

A tia estranhou o aspecto dos novos amigos do sobrinho-filho. Pareciam hippies, com roupas muito diferentes daquelas cuidadosamente separadas para a viagem. Como era mulher religiosa, entregou a Deus, abençoou Robinho e ficou torcendo por um milagre.

Eram tempos sem celular. A ausência de notícias quase matou a tia de preocupação e saudade. Meses depois, veio finalmente um telefonema. Robinho precisava de dinheiro para a passagem de volta.

– Ué, mas eu já não dei?

– Pois é, tia, mas tive que comprar umas coisinhas aqui. O dinheiro acabou.

– Está bem. Vou mandar. Mas volte logo.

– Deixe comigo.

Robinho voltou.

Mas voltou outro.

Não era mais o menino carinhoso e fantasioso de antes. Estava sério demais, com um silêncio estranho e um olhar que parecia vir de longe.

– Cadê suas coisas?

– Fui assaltado.

Foi a desculpa. Na verdade, vendera tudo para transformar em drogas.

A partir daí, Robinho entrou de cabeça nesse mundo. E não saiu mais. Para ele, talvez as drogas fossem a forma mais rápida de tornar a vida suportável. O problema é que certos alívios cobram juros altos, e a alma quase sempre entra como garantia.

De usuário a traficante, foi um pulo.

Procurado pela polícia, para desespero da tia e da avó, fugiu para Belém de São Francisco, região de Pernambuco onde, nos anos 1980, se plantava maconha com certa desenvoltura agrícola. Lá, finalmente, sentiu-se útil. Aprendeu o manejo da planta, o preparo, a comercialização e começou a ganhar dinheiro.

Ele e quatro sócios prosperaram.

Com o progresso, veio o casamento. Nunca conhecemos a esposa nem os filhos. Soube apenas que eram quatro e que um deles recebeu meu nome. Talvez porque, apesar de tudo, eu tenha procurado respeitá-lo. Ou talvez porque Robinho, mesmo perdido, guardasse alguma lembrança boa da infância.

Nunca consegui saber se foram escolhas erradas ou se a fatalidade caprichou demais na crueldade.

Como todo sonho torto também termina, Robinho acabou preso. E, como em nosso belo país muitas vezes só fica preso quem não tem dinheiro suficiente, gastou tudo o que havia juntado com o negócio das drogas para fugir. Virou foragido.

Foragido e sem dinheiro.

Depois, virou morador de rua.

Sumiu.

Nos anos 1990, minha esposa, que sempre vê coisas que eu não vejo, comentou:

– Acho que vi Robinho no início do nosso conjunto.

Duvidamos os dois, mas ela insistiu. Mulher, quando vê com os olhos e com a intuição, raramente se engana.

Às nove da noite, a campainha tocou.

Era Robinho.

Só que parecia dez anos mais velho do que eu, embora fosse dois anos mais novo. Maltrapilho, barba por fazer, sujo, exausto. A vida havia passado por ele sem pedir licença e deixado marcas em todos os cômodos.

Passado o susto, consegui dizer:

– Primo, que surpresa.

– Posso conversar com você?

– Claro. Entre.

Ele entrou. Tomou banho. Fez a barba. Demos roupas limpas. Jantou conosco.

Conversou bastante. Contou que vivia dormindo em postos de gasolina, atravessando cidades em trechos, sobrevivendo de pequenos bicos, favores, sobras e alguma esperteza.

O que mais me chamou a atenção foi o olhar.

Era o mesmo olhar da infância de Robinho, preso agora na carcaça de um homem envelhecido antes da hora. Infantil e vivo ao mesmo tempo. Um olhar pronto para pedir socorro ou inventar uma nova artimanha – às vezes as duas coisas na mesma frase.

Dormiu no quarto de empregada, que não usávamos. Por medo, confesso, trancamos portas e guardamos o que podia ser guardado. A compaixão é nobre, mas a vida ensina prudência sem pedir licença.

No dia seguinte, deixei-o no centro da cidade, com algum dinheiro, uma sacola cheia de roupas usadas da casa e outras amealhadas com os amistosos vizinhos de nosso Conjunto.

Disse que iria para Recife.

Uma semana depois, eu estava no trabalho quando o pessoal da portaria avisou que Robinho queria falar comigo.

Desci.

Ele ainda estava em Brasília. Agora vinha bem-vestido, barbeado, com aparência melhor. Dei-lhe mais algum dinheiro. Ele recebeu, abriu um sorriso maroto e comentou:

– Estou saindo com a moça que trabalha na sua casa.

Não acreditei.

Depois disso, sumiu outra vez.

Em 2009, eu trabalhava em um projeto em Alagoas quando a secretária avisou:

– Tem um sujeito na portaria dizendo que é seu primo, mas eu não deixei entrar. Acho que tem alguma coisa errada.

Pensei tratar-se de outro primo, morador de lá.

– Pode deixar. Vou recebê-lo.

Quando cheguei à portaria, tomei um susto.

Era Robinho.

De novo maltrapilho. Mais gasto. Deu vontade de abraçá-lo, mas não consegui. Exalava um cheiro desagradável, indefinível, desses que não pertencem apenas ao corpo, mas a uma soma de abandono, rua, doença e derrota.

Lembrei-me de nossa infância. Da Oficina Modess. Das namoradas invisíveis. Da pergunta sobre a questão 21. Senti uma pena profunda.

Não sabia o que dizer.

– Há quanto tempo, primo.

Foi tudo o que consegui.

Ele baixou um pouco os olhos, como se ainda preservasse algum pudor.

– Pois é. Veja a situação em que estou. Mas não quero tomar seu tempo. Tive um probleminha de diabetes e preciso comprar um remédio.

– Espere um pouco, primo. Vou sacar um dinheiro para você.

Havia um caixa eletrônico ao lado. Saquei uma boa quantia e entreguei. Ele agradeceu, guardou o dinheiro e saiu com passos ligeiros.

Enquanto estive em Alagoas, não voltou.

No ano passado, soube que Robinho morreu.

Não sei como.

Também não sei se importa muito. Pela vida que levava, a morte não deve ter chegado como surpresa. Talvez apenas tenha encontrado endereço certo depois de anos rondando postos de gasolina, rodoviárias, calçadas e quartos improvisados.

Robinho passou a vida inteira sem completar quase nada.

Não completou a gestação. Não completou a infância protegida. Não completou a oficina. Não completou os estudos. Não completou os amores que inventava. Não completou a promessa de se encontrar. Não completou a volta.

Talvez por isso me doa pensar nele.

Porque, no fundo, Robinho não foi apenas um homem que se perdeu. Foi um menino que nunca conseguiu terminar de chegar.

Durante anos, viveu como quem mantinha com a morte um noivado antigo, desses que a família percebe, comenta baixo, tenta impedir, mas sabe que um dia acaba em casamento.

E acabou.

Vivo bem com minha esposa. E vivemos juntos há várias décadas.

São dois fatos cuja combinação, nos dias atuais, parece tão improvável quanto um alinhamento completo dos planetas. Essa raridade causa espanto e talvez explique por que tantos casais amigos, quando resolvem se casar, nos convidam para padrinhos. Devem imaginar que a estabilidade conjugal seja transmissível por contato ou fotografia no altar.

Ao longo da vida, foram muitos convites.

Não sei se demos sorte a alguém.

Lembro-me do primeiro casal. Ele era colega de trabalho e, mais tarde, tornou-se meu amigo. A noiva, conhecida no mesmo ambiente profissional, também era nossa amiga. Hoje não é mais. O casamento durou pouco, mas deixou uma filha e algumas fotografias nas quais todos pareciam muito confiantes.

Depois vieram outros.

Até que surgiu o primo.

Em uma reunião de família lá em casa, minha mãe recebeu uma prima também alagoana. Com ela vieram o filho – meu primo em grau suficientemente distante –, a esposa dele e Eduardo, irmão da esposa, todos os três cariocas da gema.

Feitas as apresentações, passamos a nos encontrar nos fins de semana e feriados, em churrascos, almoços e passeios típicos de Brasília. Foi assim que comecei a entender o funcionamento da cabeça do primo.

Havia nele uma espécie de nervosismo permanente, manifestado sob a forma de comando. Qualquer programa coletivo precisava ser organizado por ele. Escolhia o lugar, o horário, a carne, o tempero do churrasco, a posição da mesa e, se lhe dessem tempo, provavelmente regulamentaria a direção do vento.

Nossos filhos ainda eram pequenos e se davam bem. Como não costumo me incomodar com manias que não interferem diretamente na minha vida, aceitava aquelas imposições sem muita resistência. Além disso, as pequenas vitórias administrativas davam ao primo uma satisfação tão visível que seria quase crueldade contrariá-lo.

Meu primeiro susto ocorreu depois de algumas cervejas.

Ele me viu com um livro nas mãos – eu costumo levar um para quase todo lugar –, aproximou-se com ar confidencial e disse:

– Primo, eu não gosto de ler.

Esperei o restante da explicação.

Veio pior:

– Na verdade, nunca li livro nenhum. Quero ter minhas próprias ideias, e não as ideias desses caras que escrevem livros.

Eu já desconfiava da qualidade das ideias próprias do primo.

Em nossas conversas, regadas ou não a cerveja, ele raramente conseguia desenvolver um raciocínio até o fim. Quando o assunto exigia algum aprofundamento, lançava um axioma de origem desconhecida, citava um texto bíblico que nem os apóstolos reconheceriam ou, simplesmente, um palavrão.

Ideias próprias, de fato, ele possuía.

O problema é que pareciam ter sido produzidas sem controle de qualidade.

Verdade seja dita: nem tudo nele era malfeito. O primo tinha uma qualidade respeitável: era um empresário próspero. Sua empresa de fornecimento de mão de obra terceirizada, em Brasília, crescia continuamente.

Não disponho de estatísticas, mas os anos de convivência com o mundo me permitem suspeitar que ler pouco, ser descontrolado e enriquecer apesar disso constitui o perfil de parcela considerável do empresariado nacional.

Os negócios prosperaram de tal maneira que o primo resolveu se aventurar na política.

Perguntei:

– Como conseguiu se filiar ao partido? Nunca vi você envolvido com política.

Ele respondeu com simplicidade:

– Paguei cinquenta mil reais. Foi caro porque foi no partido desse governador aí que sempre se elege.

Foi meu segundo susto.

Quer dizer que era assim? O cidadão chegava, pagava e comprava o direito de salvar o povo?

Durante a campanha, o primo apareceu em minha casa, que ficava bem distante da dele, acompanhado de uma pequena comitiva enfeitada com bandeiras, broches, adesivos e outros badulaques cívicos. Exigiu meu voto em nome do parentesco.

Não garanti.

Em vez disso, cometi a imprudência de perguntar qual era sua plataforma eleitoral.

Veio o terceiro susto.

– Primo, quando me perguntam isso, digo que vou melhorar os hospitais, aumentar a segurança e consertar os buracos das ruas. Mas o que vou fazer mesmo é conseguir uma secretaria no governo e recuperar o dinheiro que estou gastando na campanha.

Antes que eu me recompusesse, colocou a mão em meu ombro, olhou-me nos olhos e acrescentou:

– E vou botar você como meu chefe de gabinete. Nós vamos ficar ricos, primo!

Fiquei sem palavras.

Nem sempre o silêncio é sinal de concordância. Às vezes é apenas o organismo protegendo o cérebro.

Passei a torcer ardorosamente contra sua eleição.

Quando saiu o resultado, ficou evidente que o primo recebera apenas os votos da família – menos o meu e o de minha esposa, naturalmente.

No dia seguinte, liguei para saber como estava.

– Não se preocupe, primo. Perdi a eleição, mas usei a campanha para divulgar minha empresa.

O primo não dava ponto sem nó.

Quando dava, cobrava a linha.

Algum tempo depois, saí de férias com a família e precisei deixar meu carro com alguém que pudesse ligá-lo de vez em quando. Era um Opala marrom, novo, robusto e muito estimado. Por causa da cor, eu o chamava carinhosamente de Bostão, apelido injusto apenas para quem não conheceu determinados tons da indústria automobilística dos anos 1970.

Naquela época, carro era sonho de consumo, símbolo de ascensão social e fonte permanente de preocupação mecânica. Não convinha deixá-lo muitos dias parado.

Por recomendação de minha mulher, entreguei as chaves ao primo.

Na volta das férias, veio o quarto susto: ele não apareceu no aeroporto com o carro.

– Ué, o que aconteceu?

Olhou-me com aquela expressão serena de quem sempre tem razão:

– Primo, precisei transportar uma mercadoria urgente. Meu carro estava na oficina, então pedi ao Josias, meu motorista de confiança, para usar o seu. Tive certeza de que você não se importaria.

Eu me importaria.

Muito.

Mas ele ainda não havia chegado à parte principal.

– Houve um acidente. Graças a Deus, não aconteceu nada com Josias, mas seu carro ficou bastante danificado. Acho que não vai dar para recuperar. Mas não se preocupe: já comprei outro, modelo melhor. Um Opala SS, com motor de seis cilindros. Está na oficina, terminando uns reparos. Depois de amanhã entrego para você.

Mais uma vez, o absurdo me deixou mudo.

Não importava a necessidade que eu tivesse, jamais usaria o carro de outra pessoa, deixado sob minha responsabilidade, para transportar mercadoria. E menos ainda permitiria que um terceiro o dirigisse.

O primo, porém, agia como se tivesse acabado de me prestar um grande favor.

Durante dois dias, emprestou-me o carro dele. Era, em certa medida, um retrato do proprietário: barulhento, confuso e ocupado por objetos cuja função ninguém conhecia.

Ao menos pude levar as crianças à escola e ir trabalhar.

Finalmente, recebi o tal Opala SS.

Era branco, já reconstituído por alguma oficina de funilaria otimista. Quando chovia, entrava água junto ao pedal do acelerador. O painel vibrava, a carroceria rangia e cada curva produzia um ruído novo, como se o automóvel estivesse tentando se comunicar.

Nada nele combinava comigo.

Vendi-o, perdi dinheiro e comprei outro carro.

Nossa amizade esfriou.

Tempos depois, eu estava em casa, tranquilo, numa tarde de sábado, quando o telefone tocou.

Era o primo:

– Oi, primo. Eduardo vai se casar, como você sabe, e quer que você seja padrinho. Você aceita?

Tentei argumentar:

– Primo, parece que não dou muita sorte como padrinho.

– Nada disso. Se você não aceitar, vou ficar chateado.

A voz trazia a empáfia típica das pessoas que se consideram pessoalmente escolhidas pelo Divino para organizar a vida alheia.

Aceitei.

Na festa de noivado, conheci a noiva e descobri que era filha de um professor da UnB, conhecido meu, homem culto e respeitável. Gostava dele. A moça fazia mestrado em Sociologia.

Eduardo, irmão da esposa do primo, não conseguira ser aprovado nem em vestibular de faculdade particular. Sustentava-se com uma formação complementar adquirida em algum lugar que ninguém sabia identificar com precisão, nos subúrbios cariocas.

Eu já o conhecera em uma reunião na casa do primo.

Estávamos jogando baralho e conversando sobre assuntos variados quando ele apresentou uma conclusão que considerava sublime:

– Outro dia, conversando com meu cunhado, ficamos olhando o mar e concluímos que esse negócio de a Terra ser redonda pode não ser verdadeiro. Ela pode muito bem ser plana.

Ali estava um precursor.

Anos antes de o terraplanismo virar profissão e do pseudofilósofo Olavo de Carvalho encontrar público para qualquer disparate, Eduardo e o primo já haviam solucionado a astronomia contemplando o horizonte.

Lembrei-me de imediato da canção de Renato Russo. Nela, Eduardo e Mônica formavam um casal improvável, mas feliz. Como o Eduardo da vida real parecia ainda mais desorientado que o da música, permiti-me imaginar que talvez aquele casamento também pudesse dar certo.

O amor, afinal, já superou obstáculos mais difíceis que a ausência de livros.

No dia marcado, fomos à igreja.

Não havia ninguém.

Foi quando percebi: eu havia errado a data por um dia.

Aquilo me pareceu um mau sinal.

Voltei no dia correto. A cerimônia foi celebrada, a festa estava boa, os noivos pareciam felizes. Mas notei uma tristeza profunda no rosto do professor, pai da noiva. Não parecia apenas a melancolia natural de quem vê a filha sair de casa.

Talvez fosse o rosto de um homem culto contemplando as consequências práticas de determinadas escolhas afetivas.

O casal viajou em lua de mel para Salvador.

Uma semana depois, o primo telefonou:

– Primo, Eduardo se separou da mulher.

– Mas eles acabaram de se casar! O que aconteceu?

– Não sei direito. O que sei é que ele está aqui em casa, aos prantos, dizendo que ela não quer mais saber dele.

Nunca soube exatamente o que ocorreu na lua de mel.

Talvez ela tenha descoberto o terraplanismo.

Talvez ele tenha tentado comandar a viagem como o primo comandava os churrascos.

Talvez, ao chegar à praia e observar o horizonte, tenha resolvido explicar à jovem mestranda em Sociologia que a ciência estava enganada.

Há conhecimentos que encerram um casamento antes mesmo da volta ao hotel.

Com o tempo, o primo aposentou-se e mudou-se para alguma cidade litorânea cujo nome não sei. Felizmente, longe daqui. Deixou os negócios sob a responsabilidade dos filhos.

De Eduardo, não tive mais notícias.

Felizmente também.

Duas conclusões me ficaram de toda essa história.

A primeira: Eduardo e Mônica só funcionam mesmo na música.

A segunda: não me convidem para padrinho. Minha convivência com casamentos alheios já produziu material suficiente para vários contos e poucas bodas de prata.

O ser humano é uma criatura de complexidade maravilhosa. Talvez por isso renda tanta literatura.

Mas alguns modelos, definitivamente, não devem ser copiados.

Atribui-se a Otávio Mangabeira, governador da Bahia entre 1947 e 1951, a frase: “Pense num absurdo; na Bahia tem precedente”.

Não sei se ele disse exatamente isso, mas, se não disse, deveria ter dito. A Bahia, nesse particular, tem méritos acumulados. E a história que passo a contar, baseada em fatos – embora nomes, lugares e alguns constrangimentos tenham sido devidamente disfarçados – talvez confirme a tese com razoável competência.

Sou soteropolitano raiz. Nasci em Amaralina, bairro praiano espremido entre o Rio Vermelho e a Pituba, num tempo em que criança ainda brincava na rua, vizinho ainda sabia o nome do filho dos outros e a violência doméstica mais temida era a chinelada corretiva aplicada por mães que não haviam lido nenhum manual de pedagogia, mas eram altamente eficazes.

Fiz o ensino fundamental no tradicional Colégio Estadual Polivalente de Amaralina e cresci jogando pelada com a meninada do bairro. Depois, na adolescência, alguns daqueles garotos seguiram comigo para a mesma escola, dessa vez paga – sinal de que nossas famílias, cada uma a seu modo e com algum sacrifício, começavam a acreditar na educação como forma civilizada de escapar da pobreza.

Como costuma acontecer nessas fases da vida, formou-se naturalmente um pequeno grupo de três amigos. Amizade de infância tem uma força curiosa: nasce sem contrato, sem ata e sem reconhecimento de firma, mas atravessa décadas com mais firmeza que muita sociedade registrada em cartório.

Éramos eu, Catô e Linguiça.

Naquele tempo, ninguém conhecia a palavra bullying. Isso não impedia que todos fossem tratados com crueldade criativa e apelidos definitivos. O meu era Melão, porque eu tinha Melo no sobrenome e, para piorar, carregava alguns quilos a mais. Linguiça recebeu o nome por motivos anatômicos evidentes: era magro, comprido e parecia sempre prestes a ser pendurado num varal. Já Catô ganhou o apelido por hábito menos nobre. Foi flagrado, mais de uma vez, com o dedo enfiado no nariz, retirando a chamada catota – iguaria nasal muito conhecida no Nordeste – e, em seguida, disfarçadamente, submetendo-a a degustação.

Nossa amizade atravessou todo o curso de segundo grau. Para completar a sorte, nossos pais também se tornaram amigos. Isso dava à convivência uma aparência de instituição familiar, embora, vista de perto, fosse apenas uma reunião de adolescentes mal-acabados tentando entender o mundo, as mulheres e a matemática – nessa ordem de dificuldade.

Cada um tinha seu jeitão.

Eu era dominado pela timidez. Linguiça era ainda mais retraído. Catô, ao contrário, parecia ter nascido com microfone interno. Falava com todo mundo, ria de tudo, criava assunto do nada e, para nossa inveja silenciosa, fazia enorme sucesso com as meninas.

Influenciado pelos Beatles, deixou o cabelo crescer. Linguiça fez o mesmo. Eu tentei acompanhá-los, mas o calor baiano me convenceu rapidamente de que certas modas só funcionam em Liverpool ou em lugares onde a testa não transpira às oito da manhã. Desisti ali de seguir tendências. Até hoje sou assim. Nadar contra a corrente tem seus encantos, mas também produz uma espécie de solidão discreta.

Na esteira do sucesso de Catô com as garotas, eu me beneficiava por tabela. Íamos às festinhas – na época chamadas de “assustados” – e, como ele atraía a atenção principal, sempre sobrava alguma boa companhia para mim. Linguiça, por ser mais tímido, ficava um pouco para trás.

Mas havia uma transformação impressionante quando entrávamos em campo para jogar bola. Nas peladas, Linguiça deixava de ser aquele sujeito calado e virava uma fera. Brigava com todo mundo, reclamava de impedimento em campo sem linha, discutia lateral em terreno baldio e, ao fim da partida, voltava à mansidão habitual, como se nada tivesse acontecido. Provavelmente descarregava ali alguma frustração profunda. Ou talvez fosse apenas ruim de bola mesmo, o que, em certos homens, produz efeitos psicológicos devastadores.

Estudamos com afinco para o difícil vestibular das universidades federais, cada um com seu sonho. O meu era medicina. Tentei em Salvador, Brasília e Recife. Acabei passando de primeira na UnB, de Brasília e para lá fui, com pouco dinheiro, uma mala modesta e um caminhão de esperança.

Foram tempos duros: seis anos de curso, depois residência, plantões, alojamento estudantil e uma monitoria conquistada com esforço, que me permitia juntar algum dinheiro para visitar Salvador nas férias e rever a família e os amigos. Catô estudava Direito na Federal da Bahia, como era previsível para alguém que falava tanto. Linguiça cursava Engenharia Civil, talvez por afinidade física com vigas e pilares.

Com o tempo, fui me afastando de certos costumes da boa terra. Não por desprezo, mas por efeito da distância. Quem passa muito tempo fora começa a perder algumas chaves de leitura do lugar onde nasceu. A Bahia permanecia em mim, claro, mas às vezes eu já precisava de legenda.

Depois consegui bolsa de estudos em uma universidade de Paris e fiquei fora do Brasil por aproximadamente dez anos. As visitas a Salvador ficaram mais raras. Casei-me com Isabel, brasileira, médica como eu, gaúcha de nascimento e adversária declarada do frio, o que acabou facilitando nosso retorno ao Brasil.

Certo dia, recebi telefonema de minha mãe dizendo que meu pai estava muito mal, vítima de um infarto grave.

Entendi que era hora de voltar.

Deu tempo de vê-lo ainda com vida, mas por pouco. No enterro, reencontrei os dois amigos de sempre: Catô e Linguiça. Ali percebi, com brutal clareza, que o tempo é um funcionário público implacável: trabalha devagar, mas não falta ao expediente.

Catô e Linguiça, antes magros, poderiam agora ser chamados, ambos, de Melões. Dos três, eu era o único que havia emagrecido. Mas apelido de infância não se aposenta. Uma vez Melão, sempre Melão.

Catô estava casado. Linguiça continuava solteiro, o que, com o passar dos anos, começou a parecer menos fracasso e mais prova de inteligência estratégica.

Com o bom pé de meia amealhado durante os anos de trabalho fora do país, Isabel e eu compramos um apartamento em Amaralina, o mesmo bairro onde nasci. Reatei rapidamente meu velho círculo de amizades: primeiro com Catô e Linguiça; depois, com vizinhos antigos que ainda se lembravam de mim como “o filho de seu fulano”, essa forma baiana de identidade civil.

Com a convivência, Isabel e Tereza, esposa de Catô, também se aproximaram. Tereza era bonita, decidida e dona de uma sinceridade que às vezes avançava sobre os outros como retroescavadeira em rua estreita. Em nossas rodas de conversa, mais de uma vez, ela deixou escapar, em tom de ameaça doméstica:

– Se eu descobrir algum deslize dele, pode se considerar um homem morto.

Isabel sempre teve personalidade forte, mas não nesse modelo de registro de Código Penal comentado. Parecia evidente que Tereza desconfiava de alguma coisa. E, quando uma mulher inteligente começa a desconfiar, o marido prudente deveria procurar abrigo antes mesmo de ser acusado.

Para minha alegria, retomei também meu lazer preferido: ir ao estádio de futebol com os amigos, misturar-me à multidão e soltar, sem qualquer pudor, meus gritos e emoções. Há homens que fazem terapia. Eu ia à Fonte Nova.

Levava sempre meu rádio portátil, pequenininho, desses que cabem na palma da mão. Naquele tempo, torcedor que se prezasse assistia ao jogo com os olhos no campo e o ouvido grudado no rádio, porque sempre havia um locutor capaz de enxergar melhor que a gente, mesmo estando numa cabine distante e cercado de estatísticas duvidosas.

Éramos torcedores do Esporte Clube Bahia, exceto Catô, que torcia pelo Vitória. Toda amizade antiga tem uma tragédia escondida.

Nos fins de semana em que havia jogo do Bahia, íamos os três juntos de táxi até a Fonte Nova. Eram outros tempos: estádio antigo, sem cadeiras, com gente em pé, gente sentada, gente pendurada e, segundo a imaginação popular, capacidade para acolher metade da população do Estado. Trocava-se uma nota fiscal de qualquer produto, acrescentavam-se poucos reais e entrava-se no estádio. Por isso vivia lotado, gente vazando pelo ladrão, como se a arquitetura tivesse sido concebida por um otimista irresponsável.

Ao chegarmos à entrada, todos com seus rádios ligados na Rádio Sociedade, Catô se despedia e seguia para o lado da torcida adversária, rádio colado ao ouvido, pronto para torcer contra o Bahia. Nós respeitávamos sua escolha, evidentemente, mas fazíamos questão de acompanhá-lo, de longe, com alguns palavrões impronunciáveis em ambiente familiar.

Depois do jogo, alegando o tumulto, Catô sempre voltava sozinho para casa.

Desde os primeiros jogos, acostumei-me a sintonizar o rádio na Rádio Sociedade. O narrador principal era Sílvio Mendes, voz grossa, marcante, brincalhão, dono daquele humor nordestino que consegue transformar até lateral mal cobrado em acontecimento histórico. Mais tarde, vi uma entrevista dele e constatei tratar-se de um homem negro, alto, de presença condizente com o vozeirão que comandava os domingos da torcida.

Com o passar do tempo, comecei a notar algo curioso em sua narração.

Lembro especialmente de um Bahia x Náutico, ou Clube Náutico Capibaribe, hoje mais conhecido nas brincadeiras locais como integrante da gloriosa Lampions League. Em determinado momento, no meio da transmissão, Sílvio Mendes soltou:

– Alô, pessoal do Alpha 2! Alô, pessoal do Alpha 2! Informo que o Bahia está atacando para o Dique do Tororó e está jogando com camisa branca!

Repetiu o aviso três vezes, com a mesma entonação.

Aquilo me intrigou.

Eu, que passara muitos anos fora e havia perdido parte da malícia operacional da cultura baiana, não entendi nada. Mas também não quis passar recibo. Em certos ambientes, confessar ignorância é abrir espaço para apelido novo, e eu já tinha o meu.

Durante os anos em Brasília, sempre que podia, ia ver jogo do Gama – o Gamão do Povão – tanto no Mané Garrincha quanto no Bezerrão, na aprazível e distante cidade-satélite do Gama. Também conheci estádios país afora: Maracanã, Mineirão, Independência, Mangueirão e outros templos onde o brasileiro exerce, com devoção, o direito constitucional de xingar o juiz.

Mas jamais havia ouvido nada parecido com aquele tal “Alpha 2”.

Depois daquele Bahia x Náutico, saímos eu e Linguiça para um boteco próximo ao estádio. Queríamos tomar umas cervejas, celebrar o triunfo – na Bahia, convém evitar a palavra “vitória” quando se fala do Bahia – e esperar o trânsito melhorar.

Peguei o celular para avisar Isabel do atraso, como sempre fazia, e notei várias chamadas perdidas de Catô. Não ouvira por causa do tumulto. Liguei de volta. Ele não atendeu.

– Na certa queria voltar conosco dessa vez – sugeriu Linguiça.

– Deve ser isso mesmo – respondi.

Cheguei em casa cansado, tomei banho, comi algo leve e peguei um bom livro que estava relendo: Anna Kariênina, de Liev Tolstói. Tolstói tem essa grandeza: ao dissecar as mazelas humanas de quase dois séculos atrás, prova que a humanidade envelheceu, mas não melhorou de comportamento.

Por volta das dez da noite, tocou o interfone. Era o porteiro, com voz cansada de quem já havia perdido a fé nos moradores:

– Doutor, tem um moço querendo subir. Disse que o nome é Catô.

– Pode deixar subir.

Tomei um susto quando abri a porta.

Catô estava descabelado – justo ele, que usava algum produto capaz de manter cada fio rigidamente colado à cabeça – e trazia no rosto uma expressão de pânico absoluto. Na mão direita, segurava o rádio portátil.

– Essa porcaria ficou sem pilha. Ou melhor, acho que deixou de funcionar!

Disse aquilo com uma raiva desproporcional, como se o rádio tivesse traído a pátria. Antes que eu pudesse responder, ele entrou na sala, abriu a janela – meu apartamento ficava no décimo sexto andar – e arremessou o aparelho para fora. O rádio despencou e se despedaçou lá embaixo, na calçada, morrendo sem direito a assistência técnica.

Catô sempre fora afoito, falastrão, exagerado. Mas aquilo já parecia caso para camisa de força ou, no mínimo, para uma boa conversa com alguém da área de saúde mental.

Isabel, assustada, perguntou:

– O que aconteceu, afinal?

– A porcaria do rádio deixou de funcionar justamente quando eu mais precisava dele.

Tentei introduzir alguma racionalidade naquele teatro:

– Meu amigo, quando as coisas aqui em casa deixam de funcionar, eu não costumo jogá-las pela janela. Imagine se isso acontece com o micro-ondas ou com a geladeira.

Ele não riu. Mau sinal.

Pareceu sair de um transe e começou a balbuciar:

– Eu vi pelas câmeras. Ela estava com uma faca. Ia me matar. Tenho certeza. Posso dormir aqui hoje? Só hoje. Amanhã eu me viro.

– Você foi assaltado? Ela quem, Catô?

– Tereza. Ela vai me matar.

Não dava para administrar sozinho aquele drama conjugal em estágio de boletim de ocorrência. Peguei o celular e liguei para Linguiça. Contei, como pude, o estado em que Catô chegara à minha casa.

Foi então que entendi tudo.

Linguiça ouviu em silêncio, soltou uma risada curta e disse:

– Você ainda não sabe, Melão?

– Não sei o quê?

– Aquele recado do locutor, o tal “Alpha 2”.

– Pois é. Que diabo é aquilo?

– Alpha 2 é a amante.

Fiquei mudo.

Linguiça continuou, com a calma cruel dos bem-informados:

– O sujeito diz em casa que vai ao jogo, sai com os amigos, pega o táxi, entra no clima, leva rádio portátil e tudo. Mas, em vez de assistir à partida, vai encontrar a Alpha 2. Só que precisa voltar sabendo detalhes do jogo, porque a mulher pergunta. Então o locutor ajuda: avisa para que lado o Bahia está atacando, qual camisa está usando, como está o jogo. Assim, quando o cabra chega em casa, consegue sustentar a mentira com alguma dignidade estatística.

Olhei para Catô. Ele estava sentado no sofá, derrotado, como um zagueiro que fez gol contra em final de campeonato.

Linguiça completou:

– O problema é que Catô não tem uma Alpha 2. Tem uma pequena federação. E, na verdade, nunca assiste jogo nenhum. Vai para a esbórnia enquanto a gente fica lá, em pé, suando, xingando juiz e acreditando na falida instituição familiar.

– E Tereza?

– Tereza sempre faz perguntas quando ele volta. Quer saber o placar, a camisa, quem jogou melhor, para que lado o time atacou no primeiro tempo. Se ele errar…

Linguiça fez uma pausa.

– Hoje o rádio dele pifou. Pelo visto, a defesa ficou sem prova.

Desliguei o telefone e encarei meu velho amigo.

Catô, o mesmo menino alegre de Amaralina, o conquistador dos assustados, o advogado falante, o torcedor do Vitória infiltrado em domingos de Bahia, estava ali, refugiado em minha sala, perseguido não pela polícia, nem por credores, nem por inimigos políticos, mas pela falência tecnológica de um radinho de pilha.

Isabel, que ouvira parte da conversa, resumiu com precisão gaúcha:

– Então ele não foi ao jogo?

Catô baixou os olhos.

– Fui mais ou menos.

– Mais ou menos como?

Ele suspirou.

– Passei pelo portão do estádio.

Naquele instante, compreendi que Otávio Mangabeira talvez tivesse sido até econômico. Porque, se alguém me contasse que, em Salvador, locutor de futebol transmitia recados cifrados para maridos adúlteros manterem a versão doméstica dos fatos, eu provavelmente duvidaria.

Mas duvidaria pouco.

Afinal, pense num absurdo.

Na Bahia, além de precedente, pode haver transmissão ao vivo.

(*) Em parceria com José Rosa Filho

É uma tradição familiar: meu pai, meus irmãos e eu sofremos de insônia crônica. Crônica, mas criativa. É nas noites de insônia que a família, em vez de apagar, acende. Uns desenham, outros pintam, e eu, que nasci sem muitas habilidades nobres, e com absoluta falta de talento para o pincel, escrevo.

Convém esclarecer, antes que alguém se anime a nos enquadrar em patologia comezinha: não somos sonâmbulos. Sonâmbulos são aqueles privilegiados que podem assaltar a geladeira, visitar alcovas proibidas ou comer a última fatia de pudim e, na manhã seguinte, culpar a síndrome com ares de inocência científica. Nós não. Somos insones conscientes. Pecamos acordados e, infelizmente, com plena responsabilidade civil.

Hoje, já adultos, quando calha de nos encontrarmos no mesmo ambiente, as noites são animadas e os dias, naturalmente, mais arrastados. Mas ninguém se queixa. Já estamos acostumados ou, como se diz quando a resignação quer parecer elegante, adaptados. Nossos consortes, ao contrário, são todos dorminhocos, o que estabelece um curioso equilíbrio doméstico: enquanto eles dormem com a serenidade dos justos, nós vigiamos a casa, o mundo e, quando sobra tempo, a própria existência.

Isso, de certa forma, impede que os casamentos caiam na rotina. Em cada casa há sempre alguém atravessando a madrugada com ideias inconvenientes, passos leves e uma xícara de chá que, a rigor, não deveria estar ali. O casal não conversa durante a madrugada, é verdade, mas há uma espécie de diálogo silencioso: um ronca, o outro pensa. E assim a instituição familiar segue firme.

O mais intrigante é que a insônia não vem todas as noites. Não é definida, programada, previsível, como a tosse de tuberculoso nos romances antigos. Ela aparece quando quer, sem mandar aviso, sem respeitar agenda, compromisso, feriado ou exame de sangue no dia seguinte. É uma visita sem educação, dessas que chegam tarde, sentam na sala e ainda pedem um cafezinho.

Daí seu caráter destruidor de rotinas. A pessoa se deita com bons propósitos, escova os dentes com esperança, ajeita o travesseiro com fé, apaga a luz com certa solenidade e, de repente, está discutindo mentalmente a origem do universo, a decadência do Ocidente, a conta de água e uma resposta atravessada que deveria ter dado em 1987.

De qualquer maneira, essa característica criou em nossa cabeça uma aversão involuntária ao sono. E toda aversão, quando não encontra explicação médica convincente, descamba, inexoravelmente, para a filosofia. Ou para o imaginário, que é a filosofia de chinelo.

Nesse viés imaginário, passei a entender vida e morte como irmãos siameses. Tenham calma. Ainda não enlouqueci de todo. Ou, pelo menos, não mais do que seria recomendável a um cronista em atividade.

Em primeiro lugar, percebi que a vida é simplesmente o intervalo, por vezes curto, entre um sono e outro. Foi uma epifania. Não dessas epifanias luminosas, com harpas e anjos soprando trombetas, mas uma epifania doméstica, surgida entre o travesseiro amassado, o relógio luminoso marcando três e dezessete da manhã e a certeza cruel de que o despertador tocaria às seis.

Depois, para confirmar minha implicância com o sono, comecei a observar os idosos em filas de hospital e o comportamento das crianças. A ciência tem seus laboratórios; eu tenho paternidade, salas de espera, aniversários de família e supermercados em véspera de feriado.

Vejam quanto tempo as crianças passam dormindo. Muito. Mas, à medida que crescem, esse tempo vai diminuindo. No caso dos velhos, ocorre o contrário: muitos passam a dormir mais quando se aproximam do fim. Tenho ou não razão de implicar com o sono?

Às vezes as crianças ficam agitadas, choram, esperneiam, fazem assembleia contra o berço – lembro-me bem do sufoco de minha mulher quando nossos filhos eram bebês. Hoje, revendo a cena com a generosidade que o tempo empresta aos culpados, concluo que elas não estavam apenas dando trabalho. Estavam querendo viver mais um pouco. Queriam ficar acordadas para fiscalizar o mundo recém-descoberto. E, convenhamos, quem acaba de chegar ao planeta tem mesmo o direito de desconfiar da ordem de apagar as luzes.

Por outro lado, há velhos que se irritam e ficam insones. Talvez percebam, com a sabedoria amarga da idade, que dormir demais é uma concessão perigosa. Resistir ao sono, nesse caso, é quase um ato político: uma pequena rebelião contra o escuro, contra o esquecimento e contra essa mania que o corpo tem de ir desistindo aos poucos.

Por trás da questão do sono, há ainda a indústria farmacêutica, que nas últimas décadas inundou a civilização com fórmulas para dormir. Fórmulas, comprimidos, gotas, cápsulas, tarjas, promessas. Algumas fazem dormir; outras fazem esquecer que não dormimos. E muitas, pelos efeitos colaterais, produzem a necessidade de novos produtos, fabricados pela mesma indústria, numa espécie de ciranda química em que todos giram, menos o paciente, que permanece deitado, de olhos abertos, lendo a bula.

Sei que todos já ouviram alguém dizer: “Morro de inveja do Fulano. Dorme bem, como uma pedra. Dorme até em pé. Eu sou difícil de dormir.”

Não morro de inveja do Fulano. Tenho, no máximo, uma cautelosa preocupação geológica. Dormir como pedra nunca me pareceu grande elogio. Pedra não sonha, não conversa, não se arrepende, não escreve crônica e, salvo melhor juízo, não paga imposto. Embora, nesse último ponto, talvez esteja à nossa frente.

É certo que não estou só nessa aversão ao tempo perdido no sono. Conta-se que personagens famosas, como Napoleão Bonaparte, Margaret Thatcher e outros tipos de comportamento pouco recomendável, como o famoso político Marco Maciel, dormiam poucas horas por noite. O restante do tempo usavam para produzir alguma coisa, comandar impérios, discutir com ministros ou, no mínimo, atrapalhar o descanso alheio. No Brasil, há sempre quem use as horas insones para arquitetar uma forma de se manter no poder, qualquer poder: de preferência vitalício, ainda que seja o poder de ser síndico do condomínio.

Minha desconfiança tem ainda uma boa base na mitologia grega. Os gregos, que pensaram quase tudo antes de nós, inclusive algumas coisas que fingimos ter descoberto ontem, também não associavam o sono a algo inteiramente inocente. Hipnos personificava o sono; Tânato, a morte. E, para consolidar minha tese, eram irmãos gêmeos. Não se tratava, portanto, de simples vizinhança mitológica. Era caso de família.

A essa altura, admito que talvez eu esteja exagerando. A insônia tem esse defeito: entrega ao sujeito horas demais para elaborar teorias que, à luz do dia, talvez não resistissem nem ao primeiro café. Mas há teorias que, mesmo cambaleantes, nos fazem companhia. E uma boa companhia, de madrugada, vale mais do que uma verdade mal-humorada.

Finalmente, valho-me de Lao-Tsé – porque todo cronista precisa, em algum momento, chamar um sábio antigo para legitimar suas manias modernas – e fico com a ideia de valorizar a vivência e o momento presente. Nessa questão de dormir e acordar, o que vale mesmo é o intervalo. O breve e belo intervalo da vida. O pedaço aceso entre dois apagões. O tempo em que estamos conscientes do que acontece, do que fazemos, do que ainda podemos fazer e, sobretudo, do que sentimos.

Talvez por isso eu não lute tanto contra a insônia. Reclamo, claro. Todo insone reclama; é parte do ofício. Mas, no fundo, quando a casa inteira dorme e a madrugada se instala com seus ruídos mínimos, sinto que ganhei algumas horas clandestinas de existência. Horas roubadas do sono, da morte e até da prudência. E, se no dia seguinte eu aparecer com olheiras, peço compreensão: passei a noite vivendo.

(*) Em parceria com José Rosa Filho

O odor era fétido, agressivo, desses que não pedem licença: entram pelo nariz, ocupam a cabeça e ainda parecem sentar-se à mesa para o café.

Não consigo compará-lo a nada. Não era cheiro de esgoto, nem de rato morto, nem de ovo estragado, nem de banheiro de rodoviária em fim de feriado. Era pior justamente porque não tinha nome. Cheiro sem nome é mais assustador. O que a gente nomeia, de algum modo, domina. Aquilo me dominava.

Lembro-me da primeira vez.

Eu devia ter uns dez anos. Acordei numa manhã qualquer, depois de uma noite comum, sem sonho, sem febre, sem susto, sem visita de alma penada. Minha irmã Mariana, um ano mais velha, estava no quarto arrumando a cama com aquela superioridade natural das irmãs mais velhas.

– Que cheiro é esse?

Ela parou, me olhou e franziu a testa.

– Que cheiro?

– Esse. Está na casa toda.

Mariana respirou fundo, cheirou o ar como quem examina uma sopa e respondeu:

– Não estou sentindo nada.

– Nada?

– Nada. Você deve ter sonhado.

Essa era a explicação oficial da casa para tudo o que eu dizia de estranho: sonho, invenção ou fome. Quando a coisa era mais séria, minha mãe acrescentava verminose.

Mas o cheiro ficou comigo a manhã inteira. Só comigo. Só com o meu nariz. Perdi o apetite, quase não toquei no café, nem quis saber do lanche da escola. Passei as aulas encolhido num canto, o que rendeu mais um ponto na minha já respeitável fama de menino esquisito.

Depois do almoço, aquilo foi diminuindo. À tarde, desapareceu.

“Foi só um susto”, pensei.

No dia seguinte, foi o enterro de tia Judite.

Infarto fulminante. Estava boazinha, conversando, rindo, contando uma piada indecente –especialidade dela – quando caiu dura, para espanto de todos e tristeza geral da família. Eu gostava muito de tia Judite. Era a única adulta que tratava criança como gente e, quando achava que ninguém escutava, contava histórias impróprias para menores com a alegria de quem distribuía pirulitos.

A morte dela me abalou, mas não associei uma coisa à outra. Criança tem a vantagem de sofrer por partes. Chora, come bolo, dorme e no dia seguinte corre atrás de pipa.

A vida seguiu.

Cinco anos depois, num dia ensolarado, acordei novamente com o mesmo cheiro. Dessa vez, eu já era mais velho e, portanto, mais burro. Resolvi enfrentar o problema com método científico: enfiei algodão no nariz, embebido em perfume de minha mãe.

O resultado foi desastroso. Continuei sentindo o mesmo odor horrível, agora temperado com alfazema francesa, o que produziu uma mistura capaz de derrubar urubu em voo.

Minha mãe me encontrou no banheiro, com os olhos lacrimejando, dois chumaços enfiados nas ventas e três frascos de perfume abertos sobre a pia.

– O que é isso, menino?

Eu, com a dignidade que me restava, respondi:

– Experiência da escola.

Ela olhou para os perfumes, depois para mim, depois para os perfumes outra vez.

– Que escola é essa que ensina aluno a desperdiçar perfume caro dentro do nariz?

Não respondi. Havia perguntas que, mesmo naquela idade, eu já sabia serem retóricas. Levei uma bronca proporcional ao prejuízo e, mais uma vez, o episódio foi debitado na conta “menino estranho”, que àquela altura já rendia juros, correção monetária e multa de mora.

Na mesma tarde, Mariana sofreu um atropelamento quando voltava da escola. Quebrou um braço, uma perna e fraturou costelas. Sobreviveu, graças a Deus, mas carrega sequelas até hoje.

Aí comecei a desconfiar.

Não de imediato, porque a gente resiste muito a acreditar em desgraça organizada. Mas os episódios foram se repetindo. Um cheiro horrível pela manhã; à tarde ou no dia seguinte, uma notícia ruim. Às vezes era acidente. Às vezes doença. Às vezes morte. E havia uma regra cruel: quanto mais próxima a pessoa, pior o acontecimento.

Com o tempo, meu nariz virou uma espécie de cartório da tragédia. Não registrava nascimento, casamento, compra de casa, promoção no emprego, aprovação no vestibular. Só coisa ruim. Se meu nariz funcionasse como jornal, seria desses que abrem a edição com desastre de ônibus, fecham com escândalo político e, no meio, ainda arrumam espaço para epidemia de carrapato.

Desesperado, procurei ajuda espiritual.

Comecei pelo padre da paróquia frequentada por minha mãe. Era um homem sério, desses que falavam devagar, como se cada palavra precisasse passar antes pela sacristia.

Contei tudo. O cheiro. Tia Judite. Mariana. Outros casos. Ele ouviu em silêncio, com expressão de quem já tinha visto muito sofrimento, mas talvez nenhum nariz tão inconveniente.

Quando terminei, ele pigarreou e disse:

– Filho, acho que você está enganado. Tudo não passa de coincidência. Deus não daria a alguém esse tipo de sinal sem uma razão maior. Além disso, seus pais estão vivos. E são as pessoas que você mais ama, não são?

Eram.

Saí de lá quase aliviado. Quase.

No dia seguinte, acordei com o odor.

Tentei seguir o conselho do padre. Tomei banho, escovei os dentes três vezes, lavei o rosto, rezei um Pai-Nosso e decidi não dar importância. Passei o dia repetindo: “coincidência, coincidência, coincidência”. A palavra foi perdendo sentido, como acontece quando se repete demais qualquer coisa.

No outro dia, enterramos meu pai.

Caiu no fosso do elevador do prédio onde trabalhava.

O mesmo padre que me aconselhara estava presente na cerimônia. Durante todo o velório, não tirou os olhos de mim. Eu chorava muito, porque gostava do velho. Ele era calado, trabalhador e tinha uma forma antiga de amar: consertava coisas. Nunca dizia “eu te amo”, mas trocava resistência de chuveiro no frio, remendava chinelo, afiava faca, ajustava porta empenada. Há homens que demonstram afeto com ferramentas.

Em determinado momento, o padre me chamou num canto.

– Preciso conversar com você. Amanhã, às seis, na casa paroquial.

Não fui.

Covardia? Talvez. Prudência? Também. Eu temia que ele me dissesse duas coisas igualmente ruins: ou que eu tinha um dom, ou que eu estava condenado. Nenhuma das hipóteses me agradava.

Procurei então um centro espírita famoso na região: Casa da Paz e da Harmonia. O nome prometia tudo o que eu precisava. Fui recebido por um médium muito simpático, de olhar sereno e voz baixa. Recebi passes, tomei água fluidificada e fui apresentado a uma pequena biblioteca, o que me animou. Sempre achei que qualquer lugar com livros merece uma segunda chance.

O diagnóstico veio manso:

– Há um espírito pouco evoluído no seu caminho.

Era melhor do que “você está amaldiçoado”, mas não muito.

Com o combustível do desespero nas veias, comprei os livros recomendados e li tudo em tempo recorde. Entendi a beleza da ideia de reencarnação, esse Deus paciente que dá ao sujeito várias oportunidades, como professor antigo que permite segunda chamada. Aquilo tinha grandeza. Tinha lógica moral. Tinha consolo.

Depois fui ler Nosso Lar e desanimei um pouco. Achei tudo organizado demais para o além: ministério, colônia, função, relatório, hierarquia. Passei a vida tentando escapar de repartição e descobri que talvez houvesse burocracia até depois da morte. Para mim, foi demais.

O espiritismo serviu para muita gente. Para mim, não resolveu o nariz.

A vida seguiu, como sempre segue, com ou sem explicação. Casei-me, trabalhei, tive filhos, paguei contas, fiquei calvo, engordei um pouco e aprendi a desconfiar de otimismo exagerado. Mas o cheiro continuava aparecendo de tempos em tempos, sempre com sua pontualidade macabra.

Tentei de tudo.

Certa vez, quando senti o odor, liguei para todos os parentes mais próximos. Inventei motivos idiotas.

– Está tudo bem por aí?

– Está. Por quê?

– Nada. Só saudade.

Ninguém acreditava. Em nossa família, saudade por telefone fora de aniversário era quase confissão de culpa.

Também pensei em transformar aquilo em profissão. “Consultoria olfativa preventiva”. Mas como explicar ao cliente?

“Olha, doutor, hoje acordei sentindo um fedor considerável. Recomendo não sair de casa, não subir em escada, não discutir com sogra e, se possível, evitar elevadores, motocicletas, fritura e decisões importantes.”

Não daria certo. Além de tudo, eu não conseguia identificar a vítima. Meu nariz anunciava a tragédia, mas não entregava o endereço. Era um profeta preguiçoso.

Então veio a Covid-19.

O mundo inteiro entrou em pânico, e com razão. Máscaras, álcool em gel, isolamento, medo, hospitais lotados, notícias terríveis. Foi uma época brutal, dessas que deixam cicatrizes na memória coletiva.

Mas, para mim, no meio daquele horror, surgiu uma esperança absurda: o vírus podia tirar o olfato.

Pela primeira vez na vida, perder o cheiro pareceu uma bênção.

Tomei todas as precauções, como qualquer pessoa sensata. Depois vieram as vacinas, e tomei todas as doses assim que pude. O problema é que, vacinado e prudente, eu continuava com meu nariz funcionando. E eu queria, pela primeira vez, que ele falhasse.

Ninguém entendeu quando resolvi me apresentar como voluntário em um hospital próximo de casa. Menos ainda quando os enfermeiros percebiam que eu ajeitava a máscara o tempo todo, como quem não queria que ela cumprisse sua função com tanto zelo.

– O senhor precisa cobrir o nariz.

Eu fazia de conta que cobria.

Não deu outra. Peguei Covid. Tive febre, moleza, dor no corpo e, enfim, o milagre torto: fiquei dez dias sem sentir cheiro nem sabor. Dez dias de silêncio nasal. Dez dias em que café, alho, cebola, sabonete, desinfetante e tragédia tinham o mesmo perfume: nenhum.

Recuperei-me sem sequelas.

E o melhor: meu olfato voltou para o mundo comum, mas o cheiro maldito não voltou.

Vejam como é a vida. Aquela epidemia trouxe dor, sofrimento e morte para milhões de pessoas no mundo, mas para mim – e digo isso com toda culpa possível – significou uma espécie de libertação. Passei anos sem sentir nenhum cheiro ruim além dos escatológicos da vida, dos ônibus cheios, das geladeiras esquecidas e daqueles que a gente sente por outros sentidos quando acompanha o noticiário político.

Eu estava curado.

Ou achei que estava.

Lembro-me bem do dia em que tudo mudou de novo. Céu cinza, vento frio, meus ossos reclamando da noite mal dormida. Abri as cortinas, olhei para a rua e senti um cheiro forte.

Congelei.

Meu coração disparou. Apoiei a mão na parede, esperando o velho fedor, a velha náusea, o velho aviso.

Mas não era.

Era bom.

Doce, limpo, suave. Lembrava rosas, mas não essas rosas de floricultura, arrumadas demais, quase sem alma. Era cheiro de roseira antiga, de quintal de avó, de terra molhada, de vestido guardado em gaveta de madeira. Um perfume delicado e, ao mesmo tempo, solene.

Respirei fundo.

Pela primeira vez, meu nariz não me assustou. Meu nariz me consolou.

Passei a manhã inteira esperando alguma coisa. Não liguei para ninguém. Não fiz alarde. Apenas fiquei ali, atento, como quem aguarda visita importante.

À tarde, minha filha telefonou.

A voz dela vinha embargada e feliz.

– Pai, nasceu.

– Nasceu?

– Nasceu. Uma menina.

Sentei-me devagar.

– E o nome?

Houve uma pausa breve do outro lado. Depois, minha filha disse:

– Judite. Resolvemos homenagear tia Judite. O senhor não acha bonito?

Olhei pela janela. O perfume de rosas ainda estava ali, leve, teimoso, quase sorrindo.

– Acho – respondi. Acho bonito demais.

Desde então, passei a respeitar mais o meu nariz. Ele continua sem educação, porque entra nos assuntos sem ser chamado. Mas, pelo menos, amadureceu. Durante anos, foi mensageiro de desgraça. Agora, quem sabe, tenha aprendido a anunciar também alguma delicadeza.

No fundo, talvez seja isso a vida: uma alternância misteriosa entre fedores e perfumes. E a gente no meio, tentando respirar.

Em primeiro lugar, o nome. Tomei emprestado do famoso “conto do vigário”, aquela situação em que espertalhões tentam vender a otários – geralmente mais espertalhões ainda – bilhetes supostamente premiados.

Pois bem, o caso também envolve uma enganação. Daquelas sofisticadas, quase artesanais, feitas com a delicadeza moral que só certas famílias do interior conseguem desenvolver ao longo de gerações. E, para piorar, baseada em fatos. Nomes e lugares fictícios, claro, como manda o respeito.

A história começa no município de Barreiros, paradisíaco litoral sul de Pernambuco, onde repousam praias tranquilas como a de Porto de Nassau, lugar onde nasceu, cresceu e viveu parte da vida Pedro Conde, pescador como seu pai e seu avô.

Levando como principal atributo um currículo respeitável como pescador, casou-se cedo com a bela cabocla Marta Sina e juntos produziram nove filhos, uma menina e oito meninos, numa demonstração de coragem multiplicadora raramente vista fora de comunidades religiosas fanáticas.

Com enorme dificuldade, alfabetizaram todos. Mas apenas um resolveu estudar de verdade. Os demais frequentavam a escola com a dedicação típica de quem considera o recreio o auge do conhecimento humano. Entre eles, chamava atenção o primogênito Zeferino, preguiçoso, estabanado e dono de um talento natural para produzir constrangimentos.

O episódio a seguir define bem o personagem.

Havia um código moral muito respeitado pelos pescadores locais. Quando voltavam do mar, davam um sinal sonoro para avisar às mulheres que podiam se recompor, pois muitas estavam lavando roupa próximo ao rio em trajes compatíveis com o calor e incompatíveis com a curiosidade masculina.

Pois os próprios irmãos denunciaram Zeferino por espioná-las escondido.

Foi um escândalo.

Houve ameaça de linchamento, reunião improvisada de vizinhos e discursos inflamados sobre moralidade pública – feitos, em sua maioria, por homens que frequentavam prostíbulos em cidades vizinhas.

A confusão só não terminou pior porque Pedro Conde tinha um primo cabo da polícia, considerado autoridade de grande peso naquela região onde qualquer pessoa de farda inspirava respeito automático.

Marta Sina, mulher prática e profundamente comprometida com métodos pedagógicos alternativos, aplicou-lhe uma surra com a correia de couro reservada exclusivamente à educação doméstica. A correia chamava-se Justiceira – nome considerado excessivo apenas pelos alvos de seus golpes.

Justiceira trabalhou.

Zeferino levou outra surra histórica.

Apesar do comportamento desastroso do filho, Pedro Conde ainda acreditava que Zeferino pudesse “virar gente”. Esperança comum entre pais brasileiros e frequentemente desmentida pelos fatos.

Aos trancos e barrancos, Zeferino cresceu – virar gente já seria outro assunto – e percebeu que despertava certo interesse feminino, apesar de o conjunto deixar bastante a desejar. Era alto e magro como realização de promessa de político depois da eleição e tinha um olhar cansado. Mas havia uma que chamava sua atenção desde menina: Margarete.

Dona de cabelos claros e pele muito branca, parecia um anjo barroco perdido no litoral pernambucano. E não apenas na aparência. Era recatada, silenciosa e obediente num nível que hoje provavelmente despertaria preocupação clínica.

A única exceção em sua rotina era o pastoril natalino. Margarete participava pelo cordão vermelho, enquanto Zeferino torcia fanaticamente pelo azul, talvez por falta de causas mais relevantes na vida.

Sua amiga Suely era o completo oposto.

Alegre, expansiva e pioneira local na adoção da minissaia, transformou as próprias pernas em patrimônio turístico informal da cidade.

Os rapazes mantinham verdadeira bolsa de apostas sobre a cor da calcinha de Suely.

Zeferino, homem de convicções firmes e raciocínio fraco, apostava sempre em azul.

E errava com impressionante regularidade estatística.

Apesar das transformações culturais da época, Margarete permanecia séria como uma freira em retiro espiritual.

Tudo mudou quando a política entrou na história – como quase sempre acontece nas grandes tragédias nacionais: um tio de Pedro Conde alçou cargo importante no Estado e resolveu praticar nepotismo afetivo em favor da família.

Pedro foi nomeado fiscal da Coletoria Estadual de Pernambuco.

Apesar da instrução limitada, mostrou inteligência prática e rapidamente aprendeu o funcionamento da máquina arrecadatória.

A vida da família mudou.

Marta Sina aposentou os vestidos de chita, os filhos passaram a usar sapatos e todos começaram a desenvolver aquele comportamento típico da classe média emergente: falar mal de pobre esquecendo que tinham sido pobres na semana anterior.

Vendo o súbito progresso financeiro da família Conde, a mãe de Margarete resolveu reconsiderar as qualidades de Zeferino.

O amor tem lá sua importância. Mas estabilidade financeira costuma ter o condão de suplantar certos sentimentos – digamos – comezinhos.

Margarete concordou, como sempre, mas começava a surgir, nesses gestos, uma obediência cada vez menos parecida com submissão e cada vez mais parecida com espera.

Todos os dias, às cinco da tarde, seguia para a missa usando véu e vestidos longos, numa imagem tão pura que parecia patrocinada pela Diocese.

Como era inevitável em cidades pequenas, Zeferino e Margarete acabaram se casando.

Foram morar numa casa nos fundos da residência agora reformada de Pedro Conde, enquanto Zeferino “se firmava profissionalmente” – expressão brasileira usada para definir pessoas sem rumo.

Margarete continuou frequentando a missa das cinco.

Tudo seguia relativamente bem até a chegada da inevitável hecatombe.

Surgiu denúncia de corrupção envolvendo fiscais da Coletoria.

Pedro Conde estava entre os citados.

Foi um Deus-nos-acuda.

Processos, perícias, orações, promessas, choros e novenas.

Nada adiantou.

Pedro Conde acabou demitido a bem do serviço público – expressão jurídica elegante para dizer que alguém foi pego fazendo algo que quase todos os políticos fazem.

A casa foi vendida para sustentar o padrão de vida recém-descoberto.

Mudaram-se para um bairro mais distante.

Até que Marta Sina lembrou de parentes em São Paulo.

Mais uma família nordestina migrou para o Sudeste levando nove filhos, uma nora grávida de um menino que viria a ser chamado de Ronaldo, em homenagem ao pai dela e uma quantidade industrial de esperança.

Instalaram-se na Mooca, em acomodações pequenas, abafadas e suficientemente apertadas para fortalecer o espírito familiar à força.

Os parentes, num gesto simultâneo de confiança e irresponsabilidade, deram a Zeferino um cargo invejável: gerente de pessoal.

Seguindo a tradição familiar de ocupar funções incompatíveis com a própria capacidade, durou oito meses.

Foi o fim de sua brilhante carreira gerencial.

Depois disso, recusou empregos honestos como garçom, cozinheiro ou auxiliar administrativo.

Desenvolvera aquela enfermidade típica de certos brasileiros: a dignidade seletiva.

Passava fome, mas com status.

O único dos nove filhos que gostava de estudar, passou em concurso público e foi morar no Paraná. Parecia detento que cumpriu pena: voou para a liberdade sem olhar para trás. Sumiu.

Enquanto isso, Pedro Conde seguia tentando provar inocência na Justiça. Contou com a ajuda dos parentes da esposa e contratou famoso advogado, Dr. Fernando Cunha.

O processo durou tanto que quase ganhou direito a aposentadoria própria.

Os atrasados ficaram presos nos eternos precatórios.

Sobrou a aposentadoria.

E o cansaço.

Nesse ambiente emocionalmente saudável, o casamento de Zeferino e Margarete começou a ruir.

Especialmente para ela.

Seguindo um código antigo, covarde e nunca escrito, Zeferino bebia para esquecer os fracassos e batia em Margarete para fingir que ainda mandava em alguma coisa.

Sempre diante de Ronaldo, seu filho, neto de Pedro Conde.

Margarete nunca reclamava.

Nunca reagia.

Mas os olhos acumulavam um ódio silencioso que parecia render juros.

Com o passar dos anos, a família Conde se perdeu em subempregos e pequenos fracassos.

A exceção era Ronaldo, o neto.

Quieto.

Inteligente.

Dedicado aos estudos.

O único que parecia minimamente normal naquele conjunto familiar.

Pedro Conde o adorava.

Então vieram as cobranças da vida.

Marta Sina morreu de infarto.

Depois apareceu o câncer de Pedro Conde.

Prognóstico: um ano de vida.

Foi então que Zeferino surgiu com o plano.

Encontrara o advogado Fernando Cunha no Viaduto do Chá.

Tomaram café.

E produziram uma das ideias mais moralmente criativas da história da família.

– Eu me separo da Margarete e meu pai casa com ela.

O silêncio que se seguiu foi tão absurdo que, por alguns segundos, até Deus pareceu pedir esclarecimentos.

O objetivo era preservar a pensão após a morte de Pedro Conde.

Na teoria, para garantir o futuro de Ronaldo.

Na prática, para garantir o conforto vitalício do próprio Zeferino.

Pedro Conde, já cansado demais para discutir racionalidade, concordou.

Gastaram dinheiro com separação amigável.

O juiz estranhou a felicidade estampada no rosto da mulher durante a audiência.

Mas, sobrecarregado por crimes maiores e casamentos piores, homologou tudo.

Pedro Conde ainda viveu mais dois anos.

Morreu.

Margarete passou a receber a pensão.

Abriu conta bancária.

Conta individual.

O gerente explicou que, por questões formais, a conta deveria ficar apenas em nome dela.

Margarete ouviu aquilo como quem recebe, sem alarde, a primeira notícia boa em muitos anos.

Meses depois, o dinheiro finalmente caiu.

Naquela manhã, Margarete acordou cedo.

Preparou o café de Ronaldo.

Levou o filho à escola.

Abraçou-o demoradamente.

Havia uma lágrima escondida em seu rosto sereno.

Depois foi ao banco.

Confirmou o depósito.

Sacou dinheiro.

Pegou um talão de cheques.

Pensou:

“É suficiente.”

Por volta das onze horas, Zeferino acordou.

Espreguiçou-se.

Lavou o rosto.

Foi para a cozinha atrás do café forte preparado por Margarete.

Não encontrou a mulher.

Encontrou a irmã.

– Cadê Margarete?

– Não sei.

– Sumiu.

Pela primeira vez na vida, Margarete cumprira rigorosamente sua vontade.

Há histórias que, de tanto serem contadas, acabam promovidas à condição de verdade. Não por mérito, mas por insistência. Uma delas fala de um beduíno do Saara que, ao atravessar a fronteira rumo a Marrakesh com seus camelos, mercadorias e uma prole que já dava para formar uma cooperativa, foi interpelado por um fiscal curioso.

– Sua prole é grande, não?

O beduíno, do alto de sua ignorância, respondeu:

– Moço, minha prole pode até não ser tão grande, mas dá conta de duas mulheres, uma amante e, de vez em quando, do camelo.

O fiscal, comovido – não com o homem, mas com o camelo –, liberou a passagem.

Anos depois, eu e minha esposa Matilda, baiana de temperamento expansivo e vocação natural para plateias involuntárias, embarcamos em um cruzeiro saindo de Salvador rumo ao sul da Espanha.

Matilda era dessas figuras que não passam – ocupam o ambiente. Sua filosofia de vida cabia em duas linhas: falar muito e economizar pano. Eu, como contraponto natural, me especializei em existir discretamente, sempre meio atrás, dentro de um short largo o suficiente para abrigar dois de mim: um que anda e outro que se esconde.

Após dias de convívio social intenso. Leia-se: festas, comida em excesso e diálogos inevitáveis travados incessantemente por Matilda, o navio atracou em Casablanca. Lugar histórico, cenário de filme famoso, e, naquele dia, palco de um evento ainda não registrado na crítica cinematográfica.

Matilda, já tomada por um espírito artístico tardio, passou a narrar Casablanca para quem cruzasse seu caminho, repetindo “Toque outra vez, Sam” com uma convicção que faria o próprio Sam pedir demissão.

Não deu outra. Chamou a atenção do rei do Marrocos, que por ali passava – provavelmente em missão oficial, embora ninguém tenha confirmado. Foi amor à primeira vista. Ou, sendo mais preciso, à primeira audição.

Sem grandes formalidades – afinal, reis não costumam perder tempo com burocracia –, ordenou que sua guarda levasse Matilda para integrar o seleto grupo de suas esposas.

O alvoroço foi imediato. Turistas protestavam, o guia gritava, formou-se um comitê internacional de indignação. Todos estrangeiros, claro. Nenhum local parecia particularmente incomodado.

Eu, como sempre, estava do outro lado. Quando finalmente cheguei, já vi Matilda sendo conduzida e, para minha surpresa, não havia medo em seu rosto. Havia algo mais próximo de realização pessoal.

Minutos depois, um emissário apareceu com um camelo e me entregou as rédeas.

– Como manda a tradição – explicou o guia –, o Rei está pagando pela sua esposa.

Considerei procurar o consulado brasileiro, mas ele ficava em outra cidade e, francamente, eu não queria comprometer o restante da viagem por um detalhe conjugal.

Voltei ao navio.

Confesso: os dias que se seguiram foram de uma tranquilidade inédita. Li livros inteiros sem interrupções, comi sem ser orientado e vivi, por um breve período, a experiência rara de escutar o próprio pensamento.

Pensando em Matilda, cheguei a refletir, com certa compaixão, sobre o destino do camelo que lá deixei.

De volta a Salvador, relatei o ocorrido à família de Matilda: uma mãe em fase contemplativa e uma tia em estado avançado de mal de Alzheimer e mencionei, com firmeza retórica, que acionaria o Itamaraty.

Não acionei.

A vida seguiu. Anos depois, já juridicamente viúvo, encontrei Maristela, mulher de poucas palavras, o que, para mim, representava uma inovação promissora. Tivemos filhos. A vida entrou nos trilhos.

Até que, certo dia, recebo uma carta da Embaixada do Marrocos.

O conteúdo era direto: o Rei devolveria Matilda. E solicitava, em contrapartida, o camelo.

Pelo visto, nem a realeza está imune.

Respondi com a brevidade que o caso exigia, recorrendo a um antigo provérbio árabe:

“Confie em Allah, mas amarre seu camelo.”

Em meio ao turbilhão das redes sociais que engole a vida, há um refúgio onde o tempo desacelera: a literatura. Mais do que entretenimento, os livros são guardiães da memória coletiva, capazes de traduzir traumas, resistências e esperanças em palavras que atravessam gerações.

A ficção, especialmente quando mergulha nos meandros da história política de um país, revela verdades que documentos oficiais nem sempre alcançam. Ao humanizar personagens e reconstituir contextos, ela resgata vozes silenciadas e mantém vivas as lições que o presente tende a esquecer. Às vezes até de forma espontânea.

É sob esse prisma que a literatura cumpre seu papel mais importante: ao abordar temas esquecidos de uma forma acessível e atraente, permite não apenas lembrar, mas também alertar. Em tempos de amnésia histórica e distorções ideológicas alarmantes, romances que revisitam períodos conturbados ajudam a construir consciência crítica e – o mais importante – conduzem a reflexões que podem evitar que erros do passado se repitam.

Por isso, sob esse ponto de vista, ler não é só um ato de lazer. É um exercício de cidadania, resistência e reconexão com os elos invisíveis que nos ligam uns aos outros e ao tempo que nos formou. É, além disso, um fio de esperança num futuro melhor e mais humano.

A leitura não é apenas um exercício intelectual. É também uma forma de resistência, um gesto de memória que desafia o esquecimento sistemático promovido por regimes autoritários, pela indústria da informação superficial e pelo apagamento das vozes dos excluídos. Em um mundo cada vez mais acelerado, onde as pessoas consomem notícias sem profundidade nem embasamento, a literatura com viés histórico surge como um farol – aquele fio tênue que conecta o passado ao presente e nos ajuda a evitar a repetição de erros que custaram vidas, liberdades e dignidades. Vejamos alguns bons exemplos.

Leonardo Padura, em “O Homem que Amava os Cachorros”, constrói uma obra magistral que entrelaça a vida de Leon Trotsky, revolucionário russo assassinado no exílio no México, com a trajetória de seu algoz, Ramón Mercader, e com a de um terceiro personagem, o cubano Iván Cardona. Essa tríade narrativa permite ao leitor compreender, com riqueza de detalhes, o funcionamento do aparelho repressivo soviético sob Stalin e os reflexos disso na Cuba pós-revolucionária.

O leitor é brindado com uma narrativa clara, precisa e envolvente, pois Padura vai além da história oficial: ele humaniza figuras historicamente polarizadas, revela nuances ideológicas e mostra como sistemas políticos podem transformar indivíduos em instrumentos de opressão. Sua prosa investigativa e densa me fez refletir sobre como certos episódios são contados sempre do ponto de vista dos vencedores – e como a literatura pode devolver a palavra aos derrotados.

Isabel Allende, em “Uma Longa Pétala de Mar”, traz à tona um episódio pouco conhecido da história ibero-americana: a iniciativa do poeta Pablo Neruda em organizar o navio Winnipeg para resgatar cerca de 2.000 republicanos espanhóis fugindo da vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola (1936–1939). Através da ficção, a autora constrói personagens cujas trajetórias se entrelaçam com esse momento histórico real, oferecendo ao leitor uma visão íntima e emocional da dor do exílio, da guerra e da esperança renovada.

Ken Follett, com sua trilogia composta por “Queda de Gigantes”, “Inverno do Mundo” e “Eternidade por Um Fio”, constrói uma narrativa épica atravessada pelas duas Guerras Mundiais e pela Guerra Fria. Com personagens fictícios convivendo lado a lado com figuras históricas reais, Follett não apenas entretece uma história envolvente, mas também apresenta ao leitor os mecanismos sociais, políticos e tecnológicos que levaram o mundo às beiras do abismo.

Ao ler essas obras, percebi como movimentos nacionalistas, fanatismos e polarizações ideológicas – muitas vezes vistos como “coisas do passado” – estão mais vivos do que nunca. A literatura histórica, então, serve como um alerta constante: olhar para trás é fundamental para não tropeçarmos nas mesmas armadilhas.

A frase “quem não aprende com a história está condenado a repeti-la”, frequentemente atribuída a Hegel ou Marx, ecoa com força redobrada nos tempos atuais. Vivemos em uma era marcada por informações rápidas e superficiais, por discursos simplificados e versões distorcidas do passado. Diante disso, a literatura histórica se posiciona como uma espécie de antídoto: ela nos permite mergulhar fundo, a sentir na pele o peso das escolhas humanas, a entender os contextos complexos que moldaram nosso presente.

Mais do que entretenimento, essas obras são pontes de memória e consciência. Elas nos permitem ver o passado com outros olhos e, talvez por isso, possamos construir um futuro mais humano e justo.

Se queremos um mundo menos propenso a cair nos erros do passado, precisamos garantir que suas lições continuem vivas. E, para isso, nada substitui o poder da literatura.

* Publicado em 4/7/2025 no site Aventuras da História (clique aqui para acessar)