ALPHA 2*
Atribui-se a Otávio Mangabeira, governador da Bahia entre 1947 e 1951, a frase: “Pense num absurdo; na Bahia tem precedente”.
Não sei se ele disse exatamente isso, mas, se não disse, deveria ter dito. A Bahia, nesse particular, tem méritos acumulados. E a história que passo a contar, baseada em fatos – embora nomes, lugares e alguns constrangimentos tenham sido devidamente disfarçados – talvez confirme a tese com razoável competência.
Sou soteropolitano raiz. Nasci em Amaralina, bairro praiano espremido entre o Rio Vermelho e a Pituba, num tempo em que criança ainda brincava na rua, vizinho ainda sabia o nome do filho dos outros e a violência doméstica mais temida era a chinelada corretiva aplicada por mães que não haviam lido nenhum manual de pedagogia, mas eram altamente eficazes.
Fiz o ensino fundamental no tradicional Colégio Estadual Polivalente de Amaralina e cresci jogando pelada com a meninada do bairro. Depois, na adolescência, alguns daqueles garotos seguiram comigo para a mesma escola, dessa vez paga – sinal de que nossas famílias, cada uma a seu modo e com algum sacrifício, começavam a acreditar na educação como forma civilizada de escapar da pobreza.
Como costuma acontecer nessas fases da vida, formou-se naturalmente um pequeno grupo de três amigos. Amizade de infância tem uma força curiosa: nasce sem contrato, sem ata e sem reconhecimento de firma, mas atravessa décadas com mais firmeza que muita sociedade registrada em cartório.
Éramos eu, Catô e Linguiça.
Naquele tempo, ninguém conhecia a palavra bullying. Isso não impedia que todos fossem tratados com crueldade criativa e apelidos definitivos. O meu era Melão, porque eu tinha Melo no sobrenome e, para piorar, carregava alguns quilos a mais. Linguiça recebeu o nome por motivos anatômicos evidentes: era magro, comprido e parecia sempre prestes a ser pendurado num varal. Já Catô ganhou o apelido por hábito menos nobre. Foi flagrado, mais de uma vez, com o dedo enfiado no nariz, retirando a chamada catota – iguaria nasal muito conhecida no Nordeste – e, em seguida, disfarçadamente, submetendo-a a degustação.
Nossa amizade atravessou todo o curso de segundo grau. Para completar a sorte, nossos pais também se tornaram amigos. Isso dava à convivência uma aparência de instituição familiar, embora, vista de perto, fosse apenas uma reunião de adolescentes mal-acabados tentando entender o mundo, as mulheres e a matemática – nessa ordem de dificuldade.
Cada um tinha seu jeitão.
Eu era dominado pela timidez. Linguiça era ainda mais retraído. Catô, ao contrário, parecia ter nascido com microfone interno. Falava com todo mundo, ria de tudo, criava assunto do nada e, para nossa inveja silenciosa, fazia enorme sucesso com as meninas.
Influenciado pelos Beatles, deixou o cabelo crescer. Linguiça fez o mesmo. Eu tentei acompanhá-los, mas o calor baiano me convenceu rapidamente de que certas modas só funcionam em Liverpool ou em lugares onde a testa não transpira às oito da manhã. Desisti ali de seguir tendências. Até hoje sou assim. Nadar contra a corrente tem seus encantos, mas também produz uma espécie de solidão discreta.
Na esteira do sucesso de Catô com as garotas, eu me beneficiava por tabela. Íamos às festinhas – na época chamadas de “assustados” – e, como ele atraía a atenção principal, sempre sobrava alguma boa companhia para mim. Linguiça, por ser mais tímido, ficava um pouco para trás.
Mas havia uma transformação impressionante quando entrávamos em campo para jogar bola. Nas peladas, Linguiça deixava de ser aquele sujeito calado e virava uma fera. Brigava com todo mundo, reclamava de impedimento em campo sem linha, discutia lateral em terreno baldio e, ao fim da partida, voltava à mansidão habitual, como se nada tivesse acontecido. Provavelmente descarregava ali alguma frustração profunda. Ou talvez fosse apenas ruim de bola mesmo, o que, em certos homens, produz efeitos psicológicos devastadores.
Estudamos com afinco para o difícil vestibular das universidades federais, cada um com seu sonho. O meu era medicina. Tentei em Salvador, Brasília e Recife. Acabei passando de primeira na UnB, de Brasília e para lá fui, com pouco dinheiro, uma mala modesta e um caminhão de esperança.
Foram tempos duros: seis anos de curso, depois residência, plantões, alojamento estudantil e uma monitoria conquistada com esforço, que me permitia juntar algum dinheiro para visitar Salvador nas férias e rever a família e os amigos. Catô estudava Direito na Federal da Bahia, como era previsível para alguém que falava tanto. Linguiça cursava Engenharia Civil, talvez por afinidade física com vigas e pilares.
Com o tempo, fui me afastando de certos costumes da boa terra. Não por desprezo, mas por efeito da distância. Quem passa muito tempo fora começa a perder algumas chaves de leitura do lugar onde nasceu. A Bahia permanecia em mim, claro, mas às vezes eu já precisava de legenda.
Depois consegui bolsa de estudos em uma universidade de Paris e fiquei fora do Brasil por aproximadamente dez anos. As visitas a Salvador ficaram mais raras. Casei-me com Isabel, brasileira, médica como eu, gaúcha de nascimento e adversária declarada do frio, o que acabou facilitando nosso retorno ao Brasil.
Certo dia, recebi telefonema de minha mãe dizendo que meu pai estava muito mal, vítima de um infarto grave.
Entendi que era hora de voltar.
Deu tempo de vê-lo ainda com vida, mas por pouco. No enterro, reencontrei os dois amigos de sempre: Catô e Linguiça. Ali percebi, com brutal clareza, que o tempo é um funcionário público implacável: trabalha devagar, mas não falta ao expediente.
Catô e Linguiça, antes magros, poderiam agora ser chamados, ambos, de Melões. Dos três, eu era o único que havia emagrecido. Mas apelido de infância não se aposenta. Uma vez Melão, sempre Melão.
Catô estava casado. Linguiça continuava solteiro, o que, com o passar dos anos, começou a parecer menos fracasso e mais prova de inteligência estratégica.
Com o bom pé de meia amealhado durante os anos de trabalho fora do país, Isabel e eu compramos um apartamento em Amaralina, o mesmo bairro onde nasci. Reatei rapidamente meu velho círculo de amizades: primeiro com Catô e Linguiça; depois, com vizinhos antigos que ainda se lembravam de mim como “o filho de seu fulano”, essa forma baiana de identidade civil.
Com a convivência, Isabel e Tereza, esposa de Catô, também se aproximaram. Tereza era bonita, decidida e dona de uma sinceridade que às vezes avançava sobre os outros como retroescavadeira em rua estreita. Em nossas rodas de conversa, mais de uma vez, ela deixou escapar, em tom de ameaça doméstica:
– Se eu descobrir algum deslize dele, pode se considerar um homem morto.
Isabel sempre teve personalidade forte, mas não nesse modelo de registro de Código Penal comentado. Parecia evidente que Tereza desconfiava de alguma coisa. E, quando uma mulher inteligente começa a desconfiar, o marido prudente deveria procurar abrigo antes mesmo de ser acusado.
Para minha alegria, retomei também meu lazer preferido: ir ao estádio de futebol com os amigos, misturar-me à multidão e soltar, sem qualquer pudor, meus gritos e emoções. Há homens que fazem terapia. Eu ia à Fonte Nova.
Levava sempre meu rádio portátil, pequenininho, desses que cabem na palma da mão. Naquele tempo, torcedor que se prezasse assistia ao jogo com os olhos no campo e o ouvido grudado no rádio, porque sempre havia um locutor capaz de enxergar melhor que a gente, mesmo estando numa cabine distante e cercado de estatísticas duvidosas.
Éramos torcedores do Esporte Clube Bahia, exceto Catô, que torcia pelo Vitória. Toda amizade antiga tem uma tragédia escondida.
Nos fins de semana em que havia jogo do Bahia, íamos os três juntos de táxi até a Fonte Nova. Eram outros tempos: estádio antigo, sem cadeiras, com gente em pé, gente sentada, gente pendurada e, segundo a imaginação popular, capacidade para acolher metade da população do Estado. Trocava-se uma nota fiscal de qualquer produto, acrescentavam-se poucos reais e entrava-se no estádio. Por isso vivia lotado, gente vazando pelo ladrão, como se a arquitetura tivesse sido concebida por um otimista irresponsável.
Ao chegarmos à entrada, todos com seus rádios ligados na Rádio Sociedade, Catô se despedia e seguia para o lado da torcida adversária, rádio colado ao ouvido, pronto para torcer contra o Bahia. Nós respeitávamos sua escolha, evidentemente, mas fazíamos questão de acompanhá-lo, de longe, com alguns palavrões impronunciáveis em ambiente familiar.
Depois do jogo, alegando o tumulto, Catô sempre voltava sozinho para casa.
Desde os primeiros jogos, acostumei-me a sintonizar o rádio na Rádio Sociedade. O narrador principal era Sílvio Mendes, voz grossa, marcante, brincalhão, dono daquele humor nordestino que consegue transformar até lateral mal cobrado em acontecimento histórico. Mais tarde, vi uma entrevista dele e constatei tratar-se de um homem negro, alto, de presença condizente com o vozeirão que comandava os domingos da torcida.
Com o passar do tempo, comecei a notar algo curioso em sua narração.
Lembro especialmente de um Bahia x Náutico, ou Clube Náutico Capibaribe, hoje mais conhecido nas brincadeiras locais como integrante da gloriosa Lampions League. Em determinado momento, no meio da transmissão, Sílvio Mendes soltou:
– Alô, pessoal do Alpha 2! Alô, pessoal do Alpha 2! Informo que o Bahia está atacando para o Dique do Tororó e está jogando com camisa branca!
Repetiu o aviso três vezes, com a mesma entonação.
Aquilo me intrigou.
Eu, que passara muitos anos fora e havia perdido parte da malícia operacional da cultura baiana, não entendi nada. Mas também não quis passar recibo. Em certos ambientes, confessar ignorância é abrir espaço para apelido novo, e eu já tinha o meu.
Durante os anos em Brasília, sempre que podia, ia ver jogo do Gama – o Gamão do Povão – tanto no Mané Garrincha quanto no Bezerrão, na aprazível e distante cidade-satélite do Gama. Também conheci estádios país afora: Maracanã, Mineirão, Independência, Mangueirão e outros templos onde o brasileiro exerce, com devoção, o direito constitucional de xingar o juiz.
Mas jamais havia ouvido nada parecido com aquele tal “Alpha 2”.
Depois daquele Bahia x Náutico, saímos eu e Linguiça para um boteco próximo ao estádio. Queríamos tomar umas cervejas, celebrar o triunfo – na Bahia, convém evitar a palavra “vitória” quando se fala do Bahia – e esperar o trânsito melhorar.
Peguei o celular para avisar Isabel do atraso, como sempre fazia, e notei várias chamadas perdidas de Catô. Não ouvira por causa do tumulto. Liguei de volta. Ele não atendeu.
– Na certa queria voltar conosco dessa vez – sugeriu Linguiça.
– Deve ser isso mesmo – respondi.
Cheguei em casa cansado, tomei banho, comi algo leve e peguei um bom livro que estava relendo: Anna Kariênina, de Liev Tolstói. Tolstói tem essa grandeza: ao dissecar as mazelas humanas de quase dois séculos atrás, prova que a humanidade envelheceu, mas não melhorou de comportamento.
Por volta das dez da noite, tocou o interfone. Era o porteiro, com voz cansada de quem já havia perdido a fé nos moradores:
– Doutor, tem um moço querendo subir. Disse que o nome é Catô.
– Pode deixar subir.
Tomei um susto quando abri a porta.
Catô estava descabelado – justo ele, que usava algum produto capaz de manter cada fio rigidamente colado à cabeça – e trazia no rosto uma expressão de pânico absoluto. Na mão direita, segurava o rádio portátil.
– Essa porcaria ficou sem pilha. Ou melhor, acho que deixou de funcionar!
Disse aquilo com uma raiva desproporcional, como se o rádio tivesse traído a pátria. Antes que eu pudesse responder, ele entrou na sala, abriu a janela – meu apartamento ficava no décimo sexto andar – e arremessou o aparelho para fora. O rádio despencou e se despedaçou lá embaixo, na calçada, morrendo sem direito a assistência técnica.
Catô sempre fora afoito, falastrão, exagerado. Mas aquilo já parecia caso para camisa de força ou, no mínimo, para uma boa conversa com alguém da área de saúde mental.
Isabel, assustada, perguntou:
– O que aconteceu, afinal?
– A porcaria do rádio deixou de funcionar justamente quando eu mais precisava dele.
Tentei introduzir alguma racionalidade naquele teatro:
– Meu amigo, quando as coisas aqui em casa deixam de funcionar, eu não costumo jogá-las pela janela. Imagine se isso acontece com o micro-ondas ou com a geladeira.
Ele não riu. Mau sinal.
Pareceu sair de um transe e começou a balbuciar:
– Eu vi pelas câmeras. Ela estava com uma faca. Ia me matar. Tenho certeza. Posso dormir aqui hoje? Só hoje. Amanhã eu me viro.
– Você foi assaltado? Ela quem, Catô?
– Tereza. Ela vai me matar.
Não dava para administrar sozinho aquele drama conjugal em estágio de boletim de ocorrência. Peguei o celular e liguei para Linguiça. Contei, como pude, o estado em que Catô chegara à minha casa.
Foi então que entendi tudo.
Linguiça ouviu em silêncio, soltou uma risada curta e disse:
– Você ainda não sabe, Melão?
– Não sei o quê?
– Aquele recado do locutor, o tal “Alpha 2”.
– Pois é. Que diabo é aquilo?
– Alpha 2 é a amante.
Fiquei mudo.
Linguiça continuou, com a calma cruel dos bem-informados:
– O sujeito diz em casa que vai ao jogo, sai com os amigos, pega o táxi, entra no clima, leva rádio portátil e tudo. Mas, em vez de assistir à partida, vai encontrar a Alpha 2. Só que precisa voltar sabendo detalhes do jogo, porque a mulher pergunta. Então o locutor ajuda: avisa para que lado o Bahia está atacando, qual camisa está usando, como está o jogo. Assim, quando o cabra chega em casa, consegue sustentar a mentira com alguma dignidade estatística.
Olhei para Catô. Ele estava sentado no sofá, derrotado, como um zagueiro que fez gol contra em final de campeonato.
Linguiça completou:
– O problema é que Catô não tem uma Alpha 2. Tem uma pequena federação. E, na verdade, nunca assiste jogo nenhum. Vai para a esbórnia enquanto a gente fica lá, em pé, suando, xingando juiz e acreditando na falida instituição familiar.
– E Tereza?
– Tereza sempre faz perguntas quando ele volta. Quer saber o placar, a camisa, quem jogou melhor, para que lado o time atacou no primeiro tempo. Se ele errar…
Linguiça fez uma pausa.
– Hoje o rádio dele pifou. Pelo visto, a defesa ficou sem prova.
Desliguei o telefone e encarei meu velho amigo.
Catô, o mesmo menino alegre de Amaralina, o conquistador dos assustados, o advogado falante, o torcedor do Vitória infiltrado em domingos de Bahia, estava ali, refugiado em minha sala, perseguido não pela polícia, nem por credores, nem por inimigos políticos, mas pela falência tecnológica de um radinho de pilha.
Isabel, que ouvira parte da conversa, resumiu com precisão gaúcha:
– Então ele não foi ao jogo?
Catô baixou os olhos.
– Fui mais ou menos.
– Mais ou menos como?
Ele suspirou.
– Passei pelo portão do estádio.
Naquele instante, compreendi que Otávio Mangabeira talvez tivesse sido até econômico. Porque, se alguém me contasse que, em Salvador, locutor de futebol transmitia recados cifrados para maridos adúlteros manterem a versão doméstica dos fatos, eu provavelmente duvidaria.
Mas duvidaria pouco.
Afinal, pense num absurdo.
Na Bahia, além de precedente, pode haver transmissão ao vivo.
(*) Em parceria com José Rosa Filho
INSÔNIA*
É uma tradição familiar: meu pai, meus irmãos e eu sofremos de insônia crônica. Crônica, mas criativa. É nas noites de insônia que a família, em vez de apagar, acende. Uns desenham, outros pintam, e eu, que nasci sem muitas habilidades nobres, e com absoluta falta de talento para o pincel, escrevo.
Convém esclarecer, antes que alguém se anime a nos enquadrar em patologia comezinha: não somos sonâmbulos. Sonâmbulos são aqueles privilegiados que podem assaltar a geladeira, visitar alcovas proibidas ou comer a última fatia de pudim e, na manhã seguinte, culpar a síndrome com ares de inocência científica. Nós não. Somos insones conscientes. Pecamos acordados e, infelizmente, com plena responsabilidade civil.
Hoje, já adultos, quando calha de nos encontrarmos no mesmo ambiente, as noites são animadas e os dias, naturalmente, mais arrastados. Mas ninguém se queixa. Já estamos acostumados ou, como se diz quando a resignação quer parecer elegante, adaptados. Nossos consortes, ao contrário, são todos dorminhocos, o que estabelece um curioso equilíbrio doméstico: enquanto eles dormem com a serenidade dos justos, nós vigiamos a casa, o mundo e, quando sobra tempo, a própria existência.
Isso, de certa forma, impede que os casamentos caiam na rotina. Em cada casa há sempre alguém atravessando a madrugada com ideias inconvenientes, passos leves e uma xícara de chá que, a rigor, não deveria estar ali. O casal não conversa durante a madrugada, é verdade, mas há uma espécie de diálogo silencioso: um ronca, o outro pensa. E assim a instituição familiar segue firme.
O mais intrigante é que a insônia não vem todas as noites. Não é definida, programada, previsível, como a tosse de tuberculoso nos romances antigos. Ela aparece quando quer, sem mandar aviso, sem respeitar agenda, compromisso, feriado ou exame de sangue no dia seguinte. É uma visita sem educação, dessas que chegam tarde, sentam na sala e ainda pedem um cafezinho.
Daí seu caráter destruidor de rotinas. A pessoa se deita com bons propósitos, escova os dentes com esperança, ajeita o travesseiro com fé, apaga a luz com certa solenidade e, de repente, está discutindo mentalmente a origem do universo, a decadência do Ocidente, a conta de água e uma resposta atravessada que deveria ter dado em 1987.
De qualquer maneira, essa característica criou em nossa cabeça uma aversão involuntária ao sono. E toda aversão, quando não encontra explicação médica convincente, descamba, inexoravelmente, para a filosofia. Ou para o imaginário, que é a filosofia de chinelo.
Nesse viés imaginário, passei a entender vida e morte como irmãos siameses. Tenham calma. Ainda não enlouqueci de todo. Ou, pelo menos, não mais do que seria recomendável a um cronista em atividade.
Em primeiro lugar, percebi que a vida é simplesmente o intervalo, por vezes curto, entre um sono e outro. Foi uma epifania. Não dessas epifanias luminosas, com harpas e anjos soprando trombetas, mas uma epifania doméstica, surgida entre o travesseiro amassado, o relógio luminoso marcando três e dezessete da manhã e a certeza cruel de que o despertador tocaria às seis.
Depois, para confirmar minha implicância com o sono, comecei a observar os idosos em filas de hospital e o comportamento das crianças. A ciência tem seus laboratórios; eu tenho paternidade, salas de espera, aniversários de família e supermercados em véspera de feriado.
Vejam quanto tempo as crianças passam dormindo. Muito. Mas, à medida que crescem, esse tempo vai diminuindo. No caso dos velhos, ocorre o contrário: muitos passam a dormir mais quando se aproximam do fim. Tenho ou não razão de implicar com o sono?
Às vezes as crianças ficam agitadas, choram, esperneiam, fazem assembleia contra o berço – lembro-me bem do sufoco de minha mulher quando nossos filhos eram bebês. Hoje, revendo a cena com a generosidade que o tempo empresta aos culpados, concluo que elas não estavam apenas dando trabalho. Estavam querendo viver mais um pouco. Queriam ficar acordadas para fiscalizar o mundo recém-descoberto. E, convenhamos, quem acaba de chegar ao planeta tem mesmo o direito de desconfiar da ordem de apagar as luzes.
Por outro lado, há velhos que se irritam e ficam insones. Talvez percebam, com a sabedoria amarga da idade, que dormir demais é uma concessão perigosa. Resistir ao sono, nesse caso, é quase um ato político: uma pequena rebelião contra o escuro, contra o esquecimento e contra essa mania que o corpo tem de ir desistindo aos poucos.
Por trás da questão do sono, há ainda a indústria farmacêutica, que nas últimas décadas inundou a civilização com fórmulas para dormir. Fórmulas, comprimidos, gotas, cápsulas, tarjas, promessas. Algumas fazem dormir; outras fazem esquecer que não dormimos. E muitas, pelos efeitos colaterais, produzem a necessidade de novos produtos, fabricados pela mesma indústria, numa espécie de ciranda química em que todos giram, menos o paciente, que permanece deitado, de olhos abertos, lendo a bula.
Sei que todos já ouviram alguém dizer: “Morro de inveja do Fulano. Dorme bem, como uma pedra. Dorme até em pé. Eu sou difícil de dormir.”
Não morro de inveja do Fulano. Tenho, no máximo, uma cautelosa preocupação geológica. Dormir como pedra nunca me pareceu grande elogio. Pedra não sonha, não conversa, não se arrepende, não escreve crônica e, salvo melhor juízo, não paga imposto. Embora, nesse último ponto, talvez esteja à nossa frente.
É certo que não estou só nessa aversão ao tempo perdido no sono. Conta-se que personagens famosas, como Napoleão Bonaparte, Margaret Thatcher e outros tipos de comportamento pouco recomendável, como o famoso político Marco Maciel, dormiam poucas horas por noite. O restante do tempo usavam para produzir alguma coisa, comandar impérios, discutir com ministros ou, no mínimo, atrapalhar o descanso alheio. No Brasil, há sempre quem use as horas insones para arquitetar uma forma de se manter no poder, qualquer poder: de preferência vitalício, ainda que seja o poder de ser síndico do condomínio.
Minha desconfiança tem ainda uma boa base na mitologia grega. Os gregos, que pensaram quase tudo antes de nós, inclusive algumas coisas que fingimos ter descoberto ontem, também não associavam o sono a algo inteiramente inocente. Hipnos personificava o sono; Tânato, a morte. E, para consolidar minha tese, eram irmãos gêmeos. Não se tratava, portanto, de simples vizinhança mitológica. Era caso de família.
A essa altura, admito que talvez eu esteja exagerando. A insônia tem esse defeito: entrega ao sujeito horas demais para elaborar teorias que, à luz do dia, talvez não resistissem nem ao primeiro café. Mas há teorias que, mesmo cambaleantes, nos fazem companhia. E uma boa companhia, de madrugada, vale mais do que uma verdade mal-humorada.
Finalmente, valho-me de Lao-Tsé – porque todo cronista precisa, em algum momento, chamar um sábio antigo para legitimar suas manias modernas – e fico com a ideia de valorizar a vivência e o momento presente. Nessa questão de dormir e acordar, o que vale mesmo é o intervalo. O breve e belo intervalo da vida. O pedaço aceso entre dois apagões. O tempo em que estamos conscientes do que acontece, do que fazemos, do que ainda podemos fazer e, sobretudo, do que sentimos.
Talvez por isso eu não lute tanto contra a insônia. Reclamo, claro. Todo insone reclama; é parte do ofício. Mas, no fundo, quando a casa inteira dorme e a madrugada se instala com seus ruídos mínimos, sinto que ganhei algumas horas clandestinas de existência. Horas roubadas do sono, da morte e até da prudência. E, se no dia seguinte eu aparecer com olheiras, peço compreensão: passei a noite vivendo.
(*) Em parceria com José Rosa Filho
NARIZ
O odor era fétido, agressivo, desses que não pedem licença: entram pelo nariz, ocupam a cabeça e ainda parecem sentar-se à mesa para o café.
Não consigo compará-lo a nada. Não era cheiro de esgoto, nem de rato morto, nem de ovo estragado, nem de banheiro de rodoviária em fim de feriado. Era pior justamente porque não tinha nome. Cheiro sem nome é mais assustador. O que a gente nomeia, de algum modo, domina. Aquilo me dominava.
Lembro-me da primeira vez.
Eu devia ter uns dez anos. Acordei numa manhã qualquer, depois de uma noite comum, sem sonho, sem febre, sem susto, sem visita de alma penada. Minha irmã Mariana, um ano mais velha, estava no quarto arrumando a cama com aquela superioridade natural das irmãs mais velhas.
– Que cheiro é esse?
Ela parou, me olhou e franziu a testa.
– Que cheiro?
– Esse. Está na casa toda.
Mariana respirou fundo, cheirou o ar como quem examina uma sopa e respondeu:
– Não estou sentindo nada.
– Nada?
– Nada. Você deve ter sonhado.
Essa era a explicação oficial da casa para tudo o que eu dizia de estranho: sonho, invenção ou fome. Quando a coisa era mais séria, minha mãe acrescentava verminose.
Mas o cheiro ficou comigo a manhã inteira. Só comigo. Só com o meu nariz. Perdi o apetite, quase não toquei no café, nem quis saber do lanche da escola. Passei as aulas encolhido num canto, o que rendeu mais um ponto na minha já respeitável fama de menino esquisito.
Depois do almoço, aquilo foi diminuindo. À tarde, desapareceu.
“Foi só um susto”, pensei.
No dia seguinte, foi o enterro de tia Judite.
Infarto fulminante. Estava boazinha, conversando, rindo, contando uma piada indecente –especialidade dela – quando caiu dura, para espanto de todos e tristeza geral da família. Eu gostava muito de tia Judite. Era a única adulta que tratava criança como gente e, quando achava que ninguém escutava, contava histórias impróprias para menores com a alegria de quem distribuía pirulitos.
A morte dela me abalou, mas não associei uma coisa à outra. Criança tem a vantagem de sofrer por partes. Chora, come bolo, dorme e no dia seguinte corre atrás de pipa.
A vida seguiu.
Cinco anos depois, num dia ensolarado, acordei novamente com o mesmo cheiro. Dessa vez, eu já era mais velho e, portanto, mais burro. Resolvi enfrentar o problema com método científico: enfiei algodão no nariz, embebido em perfume de minha mãe.
O resultado foi desastroso. Continuei sentindo o mesmo odor horrível, agora temperado com alfazema francesa, o que produziu uma mistura capaz de derrubar urubu em voo.
Minha mãe me encontrou no banheiro, com os olhos lacrimejando, dois chumaços enfiados nas ventas e três frascos de perfume abertos sobre a pia.
– O que é isso, menino?
Eu, com a dignidade que me restava, respondi:
– Experiência da escola.
Ela olhou para os perfumes, depois para mim, depois para os perfumes outra vez.
– Que escola é essa que ensina aluno a desperdiçar perfume caro dentro do nariz?
Não respondi. Havia perguntas que, mesmo naquela idade, eu já sabia serem retóricas. Levei uma bronca proporcional ao prejuízo e, mais uma vez, o episódio foi debitado na conta “menino estranho”, que àquela altura já rendia juros, correção monetária e multa de mora.
Na mesma tarde, Mariana sofreu um atropelamento quando voltava da escola. Quebrou um braço, uma perna e fraturou costelas. Sobreviveu, graças a Deus, mas carrega sequelas até hoje.
Aí comecei a desconfiar.
Não de imediato, porque a gente resiste muito a acreditar em desgraça organizada. Mas os episódios foram se repetindo. Um cheiro horrível pela manhã; à tarde ou no dia seguinte, uma notícia ruim. Às vezes era acidente. Às vezes doença. Às vezes morte. E havia uma regra cruel: quanto mais próxima a pessoa, pior o acontecimento.
Com o tempo, meu nariz virou uma espécie de cartório da tragédia. Não registrava nascimento, casamento, compra de casa, promoção no emprego, aprovação no vestibular. Só coisa ruim. Se meu nariz funcionasse como jornal, seria desses que abrem a edição com desastre de ônibus, fecham com escândalo político e, no meio, ainda arrumam espaço para epidemia de carrapato.
Desesperado, procurei ajuda espiritual.
Comecei pelo padre da paróquia frequentada por minha mãe. Era um homem sério, desses que falavam devagar, como se cada palavra precisasse passar antes pela sacristia.
Contei tudo. O cheiro. Tia Judite. Mariana. Outros casos. Ele ouviu em silêncio, com expressão de quem já tinha visto muito sofrimento, mas talvez nenhum nariz tão inconveniente.
Quando terminei, ele pigarreou e disse:
– Filho, acho que você está enganado. Tudo não passa de coincidência. Deus não daria a alguém esse tipo de sinal sem uma razão maior. Além disso, seus pais estão vivos. E são as pessoas que você mais ama, não são?
Eram.
Saí de lá quase aliviado. Quase.
No dia seguinte, acordei com o odor.
Tentei seguir o conselho do padre. Tomei banho, escovei os dentes três vezes, lavei o rosto, rezei um Pai-Nosso e decidi não dar importância. Passei o dia repetindo: “coincidência, coincidência, coincidência”. A palavra foi perdendo sentido, como acontece quando se repete demais qualquer coisa.
No outro dia, enterramos meu pai.
Caiu no fosso do elevador do prédio onde trabalhava.
O mesmo padre que me aconselhara estava presente na cerimônia. Durante todo o velório, não tirou os olhos de mim. Eu chorava muito, porque gostava do velho. Ele era calado, trabalhador e tinha uma forma antiga de amar: consertava coisas. Nunca dizia “eu te amo”, mas trocava resistência de chuveiro no frio, remendava chinelo, afiava faca, ajustava porta empenada. Há homens que demonstram afeto com ferramentas.
Em determinado momento, o padre me chamou num canto.
– Preciso conversar com você. Amanhã, às seis, na casa paroquial.
Não fui.
Covardia? Talvez. Prudência? Também. Eu temia que ele me dissesse duas coisas igualmente ruins: ou que eu tinha um dom, ou que eu estava condenado. Nenhuma das hipóteses me agradava.
Procurei então um centro espírita famoso na região: Casa da Paz e da Harmonia. O nome prometia tudo o que eu precisava. Fui recebido por um médium muito simpático, de olhar sereno e voz baixa. Recebi passes, tomei água fluidificada e fui apresentado a uma pequena biblioteca, o que me animou. Sempre achei que qualquer lugar com livros merece uma segunda chance.
O diagnóstico veio manso:
– Há um espírito pouco evoluído no seu caminho.
Era melhor do que “você está amaldiçoado”, mas não muito.
Com o combustível do desespero nas veias, comprei os livros recomendados e li tudo em tempo recorde. Entendi a beleza da ideia de reencarnação, esse Deus paciente que dá ao sujeito várias oportunidades, como professor antigo que permite segunda chamada. Aquilo tinha grandeza. Tinha lógica moral. Tinha consolo.
Depois fui ler Nosso Lar e desanimei um pouco. Achei tudo organizado demais para o além: ministério, colônia, função, relatório, hierarquia. Passei a vida tentando escapar de repartição e descobri que talvez houvesse burocracia até depois da morte. Para mim, foi demais.
O espiritismo serviu para muita gente. Para mim, não resolveu o nariz.
A vida seguiu, como sempre segue, com ou sem explicação. Casei-me, trabalhei, tive filhos, paguei contas, fiquei calvo, engordei um pouco e aprendi a desconfiar de otimismo exagerado. Mas o cheiro continuava aparecendo de tempos em tempos, sempre com sua pontualidade macabra.
Tentei de tudo.
Certa vez, quando senti o odor, liguei para todos os parentes mais próximos. Inventei motivos idiotas.
– Está tudo bem por aí?
– Está. Por quê?
– Nada. Só saudade.
Ninguém acreditava. Em nossa família, saudade por telefone fora de aniversário era quase confissão de culpa.
Também pensei em transformar aquilo em profissão. “Consultoria olfativa preventiva”. Mas como explicar ao cliente?
“Olha, doutor, hoje acordei sentindo um fedor considerável. Recomendo não sair de casa, não subir em escada, não discutir com sogra e, se possível, evitar elevadores, motocicletas, fritura e decisões importantes.”
Não daria certo. Além de tudo, eu não conseguia identificar a vítima. Meu nariz anunciava a tragédia, mas não entregava o endereço. Era um profeta preguiçoso.
Então veio a Covid-19.
O mundo inteiro entrou em pânico, e com razão. Máscaras, álcool em gel, isolamento, medo, hospitais lotados, notícias terríveis. Foi uma época brutal, dessas que deixam cicatrizes na memória coletiva.
Mas, para mim, no meio daquele horror, surgiu uma esperança absurda: o vírus podia tirar o olfato.
Pela primeira vez na vida, perder o cheiro pareceu uma bênção.
Tomei todas as precauções, como qualquer pessoa sensata. Depois vieram as vacinas, e tomei todas as doses assim que pude. O problema é que, vacinado e prudente, eu continuava com meu nariz funcionando. E eu queria, pela primeira vez, que ele falhasse.
Ninguém entendeu quando resolvi me apresentar como voluntário em um hospital próximo de casa. Menos ainda quando os enfermeiros percebiam que eu ajeitava a máscara o tempo todo, como quem não queria que ela cumprisse sua função com tanto zelo.
– O senhor precisa cobrir o nariz.
Eu fazia de conta que cobria.
Não deu outra. Peguei Covid. Tive febre, moleza, dor no corpo e, enfim, o milagre torto: fiquei dez dias sem sentir cheiro nem sabor. Dez dias de silêncio nasal. Dez dias em que café, alho, cebola, sabonete, desinfetante e tragédia tinham o mesmo perfume: nenhum.
Recuperei-me sem sequelas.
E o melhor: meu olfato voltou para o mundo comum, mas o cheiro maldito não voltou.
Vejam como é a vida. Aquela epidemia trouxe dor, sofrimento e morte para milhões de pessoas no mundo, mas para mim – e digo isso com toda culpa possível – significou uma espécie de libertação. Passei anos sem sentir nenhum cheiro ruim além dos escatológicos da vida, dos ônibus cheios, das geladeiras esquecidas e daqueles que a gente sente por outros sentidos quando acompanha o noticiário político.
Eu estava curado.
Ou achei que estava.
Lembro-me bem do dia em que tudo mudou de novo. Céu cinza, vento frio, meus ossos reclamando da noite mal dormida. Abri as cortinas, olhei para a rua e senti um cheiro forte.
Congelei.
Meu coração disparou. Apoiei a mão na parede, esperando o velho fedor, a velha náusea, o velho aviso.
Mas não era.
Era bom.
Doce, limpo, suave. Lembrava rosas, mas não essas rosas de floricultura, arrumadas demais, quase sem alma. Era cheiro de roseira antiga, de quintal de avó, de terra molhada, de vestido guardado em gaveta de madeira. Um perfume delicado e, ao mesmo tempo, solene.
Respirei fundo.
Pela primeira vez, meu nariz não me assustou. Meu nariz me consolou.
Passei a manhã inteira esperando alguma coisa. Não liguei para ninguém. Não fiz alarde. Apenas fiquei ali, atento, como quem aguarda visita importante.
À tarde, minha filha telefonou.
A voz dela vinha embargada e feliz.
– Pai, nasceu.
– Nasceu?
– Nasceu. Uma menina.
Sentei-me devagar.
– E o nome?
Houve uma pausa breve do outro lado. Depois, minha filha disse:
– Judite. Resolvemos homenagear tia Judite. O senhor não acha bonito?
Olhei pela janela. O perfume de rosas ainda estava ali, leve, teimoso, quase sorrindo.
– Acho – respondi. Acho bonito demais.
Desde então, passei a respeitar mais o meu nariz. Ele continua sem educação, porque entra nos assuntos sem ser chamado. Mas, pelo menos, amadureceu. Durante anos, foi mensageiro de desgraça. Agora, quem sabe, tenha aprendido a anunciar também alguma delicadeza.
No fundo, talvez seja isso a vida: uma alternância misteriosa entre fedores e perfumes. E a gente no meio, tentando respirar.
O CONTO DA NORA
Em primeiro lugar, o nome. Tomei emprestado do famoso “conto do vigário”, aquela situação em que espertalhões tentam vender a otários – geralmente mais espertalhões ainda – bilhetes supostamente premiados.
Pois bem, o caso também envolve uma enganação. Daquelas sofisticadas, quase artesanais, feitas com a delicadeza moral que só certas famílias do interior conseguem desenvolver ao longo de gerações. E, para piorar, baseada em fatos. Nomes e lugares fictícios, claro, como manda o respeito.
A história começa no município de Barreiros, paradisíaco litoral sul de Pernambuco, onde repousam praias tranquilas como a de Porto de Nassau, lugar onde nasceu, cresceu e viveu parte da vida Pedro Conde, pescador como seu pai e seu avô.
Levando como principal atributo um currículo respeitável como pescador, casou-se cedo com a bela cabocla Marta Sina e juntos produziram nove filhos, uma menina e oito meninos, numa demonstração de coragem multiplicadora raramente vista fora de comunidades religiosas fanáticas.
Com enorme dificuldade, alfabetizaram todos. Mas apenas um resolveu estudar de verdade. Os demais frequentavam a escola com a dedicação típica de quem considera o recreio o auge do conhecimento humano. Entre eles, chamava atenção o primogênito Zeferino, preguiçoso, estabanado e dono de um talento natural para produzir constrangimentos.
O episódio a seguir define bem o personagem.
Havia um código moral muito respeitado pelos pescadores locais. Quando voltavam do mar, davam um sinal sonoro para avisar às mulheres que podiam se recompor, pois muitas estavam lavando roupa próximo ao rio em trajes compatíveis com o calor e incompatíveis com a curiosidade masculina.
Pois os próprios irmãos denunciaram Zeferino por espioná-las escondido.
Foi um escândalo.
Houve ameaça de linchamento, reunião improvisada de vizinhos e discursos inflamados sobre moralidade pública – feitos, em sua maioria, por homens que frequentavam prostíbulos em cidades vizinhas.
A confusão só não terminou pior porque Pedro Conde tinha um primo cabo da polícia, considerado autoridade de grande peso naquela região onde qualquer pessoa de farda inspirava respeito automático.
Marta Sina, mulher prática e profundamente comprometida com métodos pedagógicos alternativos, aplicou-lhe uma surra com a correia de couro reservada exclusivamente à educação doméstica. A correia chamava-se Justiceira – nome considerado excessivo apenas pelos alvos de seus golpes.
Justiceira trabalhou.
Zeferino levou outra surra histórica.
Apesar do comportamento desastroso do filho, Pedro Conde ainda acreditava que Zeferino pudesse “virar gente”. Esperança comum entre pais brasileiros e frequentemente desmentida pelos fatos.
Aos trancos e barrancos, Zeferino cresceu – virar gente já seria outro assunto – e percebeu que despertava certo interesse feminino, apesar de o conjunto deixar bastante a desejar. Era alto e magro como realização de promessa de político depois da eleição e tinha um olhar cansado. Mas havia uma que chamava sua atenção desde menina: Margarete.
Dona de cabelos claros e pele muito branca, parecia um anjo barroco perdido no litoral pernambucano. E não apenas na aparência. Era recatada, silenciosa e obediente num nível que hoje provavelmente despertaria preocupação clínica.
A única exceção em sua rotina era o pastoril natalino. Margarete participava pelo cordão vermelho, enquanto Zeferino torcia fanaticamente pelo azul, talvez por falta de causas mais relevantes na vida.
Sua amiga Suely era o completo oposto.
Alegre, expansiva e pioneira local na adoção da minissaia, transformou as próprias pernas em patrimônio turístico informal da cidade.
Os rapazes mantinham verdadeira bolsa de apostas sobre a cor da calcinha de Suely.
Zeferino, homem de convicções firmes e raciocínio fraco, apostava sempre em azul.
E errava com impressionante regularidade estatística.
Apesar das transformações culturais da época, Margarete permanecia séria como uma freira em retiro espiritual.
Tudo mudou quando a política entrou na história – como quase sempre acontece nas grandes tragédias nacionais: um tio de Pedro Conde alçou cargo importante no Estado e resolveu praticar nepotismo afetivo em favor da família.
Pedro foi nomeado fiscal da Coletoria Estadual de Pernambuco.
Apesar da instrução limitada, mostrou inteligência prática e rapidamente aprendeu o funcionamento da máquina arrecadatória.
A vida da família mudou.
Marta Sina aposentou os vestidos de chita, os filhos passaram a usar sapatos e todos começaram a desenvolver aquele comportamento típico da classe média emergente: falar mal de pobre esquecendo que tinham sido pobres na semana anterior.
Vendo o súbito progresso financeiro da família Conde, a mãe de Margarete resolveu reconsiderar as qualidades de Zeferino.
O amor tem lá sua importância. Mas estabilidade financeira costuma ter o condão de suplantar certos sentimentos – digamos – comezinhos.
Margarete concordou, como sempre, mas começava a surgir, nesses gestos, uma obediência cada vez menos parecida com submissão e cada vez mais parecida com espera.
Todos os dias, às cinco da tarde, seguia para a missa usando véu e vestidos longos, numa imagem tão pura que parecia patrocinada pela Diocese.
Como era inevitável em cidades pequenas, Zeferino e Margarete acabaram se casando.
Foram morar numa casa nos fundos da residência agora reformada de Pedro Conde, enquanto Zeferino “se firmava profissionalmente” – expressão brasileira usada para definir pessoas sem rumo.
Margarete continuou frequentando a missa das cinco.
Tudo seguia relativamente bem até a chegada da inevitável hecatombe.
Surgiu denúncia de corrupção envolvendo fiscais da Coletoria.
Pedro Conde estava entre os citados.
Foi um Deus-nos-acuda.
Processos, perícias, orações, promessas, choros e novenas.
Nada adiantou.
Pedro Conde acabou demitido a bem do serviço público – expressão jurídica elegante para dizer que alguém foi pego fazendo algo que quase todos os políticos fazem.
A casa foi vendida para sustentar o padrão de vida recém-descoberto.
Mudaram-se para um bairro mais distante.
Até que Marta Sina lembrou de parentes em São Paulo.
Mais uma família nordestina migrou para o Sudeste levando nove filhos, uma nora grávida de um menino que viria a ser chamado de Ronaldo, em homenagem ao pai dela e uma quantidade industrial de esperança.
Instalaram-se na Mooca, em acomodações pequenas, abafadas e suficientemente apertadas para fortalecer o espírito familiar à força.
Os parentes, num gesto simultâneo de confiança e irresponsabilidade, deram a Zeferino um cargo invejável: gerente de pessoal.
Seguindo a tradição familiar de ocupar funções incompatíveis com a própria capacidade, durou oito meses.
Foi o fim de sua brilhante carreira gerencial.
Depois disso, recusou empregos honestos como garçom, cozinheiro ou auxiliar administrativo.
Desenvolvera aquela enfermidade típica de certos brasileiros: a dignidade seletiva.
Passava fome, mas com status.
O único dos nove filhos que gostava de estudar, passou em concurso público e foi morar no Paraná. Parecia detento que cumpriu pena: voou para a liberdade sem olhar para trás. Sumiu.
Enquanto isso, Pedro Conde seguia tentando provar inocência na Justiça. Contou com a ajuda dos parentes da esposa e contratou famoso advogado, Dr. Fernando Cunha.
O processo durou tanto que quase ganhou direito a aposentadoria própria.
Os atrasados ficaram presos nos eternos precatórios.
Sobrou a aposentadoria.
E o cansaço.
Nesse ambiente emocionalmente saudável, o casamento de Zeferino e Margarete começou a ruir.
Especialmente para ela.
Seguindo um código antigo, covarde e nunca escrito, Zeferino bebia para esquecer os fracassos e batia em Margarete para fingir que ainda mandava em alguma coisa.
Sempre diante de Ronaldo, seu filho, neto de Pedro Conde.
Margarete nunca reclamava.
Nunca reagia.
Mas os olhos acumulavam um ódio silencioso que parecia render juros.
Com o passar dos anos, a família Conde se perdeu em subempregos e pequenos fracassos.
A exceção era Ronaldo, o neto.
Quieto.
Inteligente.
Dedicado aos estudos.
O único que parecia minimamente normal naquele conjunto familiar.
Pedro Conde o adorava.
Então vieram as cobranças da vida.
Marta Sina morreu de infarto.
Depois apareceu o câncer de Pedro Conde.
Prognóstico: um ano de vida.
Foi então que Zeferino surgiu com o plano.
Encontrara o advogado Fernando Cunha no Viaduto do Chá.
Tomaram café.
E produziram uma das ideias mais moralmente criativas da história da família.
– Eu me separo da Margarete e meu pai casa com ela.
O silêncio que se seguiu foi tão absurdo que, por alguns segundos, até Deus pareceu pedir esclarecimentos.
O objetivo era preservar a pensão após a morte de Pedro Conde.
Na teoria, para garantir o futuro de Ronaldo.
Na prática, para garantir o conforto vitalício do próprio Zeferino.
Pedro Conde, já cansado demais para discutir racionalidade, concordou.
Gastaram dinheiro com separação amigável.
O juiz estranhou a felicidade estampada no rosto da mulher durante a audiência.
Mas, sobrecarregado por crimes maiores e casamentos piores, homologou tudo.
Pedro Conde ainda viveu mais dois anos.
Morreu.
Margarete passou a receber a pensão.
Abriu conta bancária.
Conta individual.
O gerente explicou que, por questões formais, a conta deveria ficar apenas em nome dela.
Margarete ouviu aquilo como quem recebe, sem alarde, a primeira notícia boa em muitos anos.
Meses depois, o dinheiro finalmente caiu.
Naquela manhã, Margarete acordou cedo.
Preparou o café de Ronaldo.
Levou o filho à escola.
Abraçou-o demoradamente.
Havia uma lágrima escondida em seu rosto sereno.
Depois foi ao banco.
Confirmou o depósito.
Sacou dinheiro.
Pegou um talão de cheques.
Pensou:
“É suficiente.”
Por volta das onze horas, Zeferino acordou.
Espreguiçou-se.
Lavou o rosto.
Foi para a cozinha atrás do café forte preparado por Margarete.
Não encontrou a mulher.
Encontrou a irmã.
– Cadê Margarete?
– Não sei.
– Sumiu.
Pela primeira vez na vida, Margarete cumprira rigorosamente sua vontade.
MATILDA
Há histórias que, de tanto serem contadas, acabam promovidas à condição de verdade. Não por mérito, mas por insistência. Uma delas fala de um beduíno do Saara que, ao atravessar a fronteira rumo a Marrakesh com seus camelos, mercadorias e uma prole que já dava para formar uma cooperativa, foi interpelado por um fiscal curioso.
– Sua prole é grande, não?
O beduíno, do alto de sua ignorância, respondeu:
– Moço, minha prole pode até não ser tão grande, mas dá conta de duas mulheres, uma amante e, de vez em quando, do camelo.
O fiscal, comovido – não com o homem, mas com o camelo –, liberou a passagem.
Anos depois, eu e minha esposa Matilda, baiana de temperamento expansivo e vocação natural para plateias involuntárias, embarcamos em um cruzeiro saindo de Salvador rumo ao sul da Espanha.
Matilda era dessas figuras que não passam – ocupam o ambiente. Sua filosofia de vida cabia em duas linhas: falar muito e economizar pano. Eu, como contraponto natural, me especializei em existir discretamente, sempre meio atrás, dentro de um short largo o suficiente para abrigar dois de mim: um que anda e outro que se esconde.
Após dias de convívio social intenso. Leia-se: festas, comida em excesso e diálogos inevitáveis travados incessantemente por Matilda, o navio atracou em Casablanca. Lugar histórico, cenário de filme famoso, e, naquele dia, palco de um evento ainda não registrado na crítica cinematográfica.
Matilda, já tomada por um espírito artístico tardio, passou a narrar Casablanca para quem cruzasse seu caminho, repetindo “Toque outra vez, Sam” com uma convicção que faria o próprio Sam pedir demissão.
Não deu outra. Chamou a atenção do rei do Marrocos, que por ali passava – provavelmente em missão oficial, embora ninguém tenha confirmado. Foi amor à primeira vista. Ou, sendo mais preciso, à primeira audição.
Sem grandes formalidades – afinal, reis não costumam perder tempo com burocracia –, ordenou que sua guarda levasse Matilda para integrar o seleto grupo de suas esposas.
O alvoroço foi imediato. Turistas protestavam, o guia gritava, formou-se um comitê internacional de indignação. Todos estrangeiros, claro. Nenhum local parecia particularmente incomodado.
Eu, como sempre, estava do outro lado. Quando finalmente cheguei, já vi Matilda sendo conduzida e, para minha surpresa, não havia medo em seu rosto. Havia algo mais próximo de realização pessoal.
Minutos depois, um emissário apareceu com um camelo e me entregou as rédeas.
– Como manda a tradição – explicou o guia –, o Rei está pagando pela sua esposa.
Considerei procurar o consulado brasileiro, mas ele ficava em outra cidade e, francamente, eu não queria comprometer o restante da viagem por um detalhe conjugal.
Voltei ao navio.
Confesso: os dias que se seguiram foram de uma tranquilidade inédita. Li livros inteiros sem interrupções, comi sem ser orientado e vivi, por um breve período, a experiência rara de escutar o próprio pensamento.
Pensando em Matilda, cheguei a refletir, com certa compaixão, sobre o destino do camelo que lá deixei.
De volta a Salvador, relatei o ocorrido à família de Matilda: uma mãe em fase contemplativa e uma tia em estado avançado de mal de Alzheimer e mencionei, com firmeza retórica, que acionaria o Itamaraty.
Não acionei.
A vida seguiu. Anos depois, já juridicamente viúvo, encontrei Maristela, mulher de poucas palavras, o que, para mim, representava uma inovação promissora. Tivemos filhos. A vida entrou nos trilhos.
Até que, certo dia, recebo uma carta da Embaixada do Marrocos.
O conteúdo era direto: o Rei devolveria Matilda. E solicitava, em contrapartida, o camelo.
Pelo visto, nem a realeza está imune.
Respondi com a brevidade que o caso exigia, recorrendo a um antigo provérbio árabe:
“Confie em Allah, mas amarre seu camelo.”
O passado pode não passar: a literatura como forma de resistência*
Em meio ao turbilhão das redes sociais que engole a vida, há um refúgio onde o tempo desacelera: a literatura. Mais do que entretenimento, os livros são guardiães da memória coletiva, capazes de traduzir traumas, resistências e esperanças em palavras que atravessam gerações.
A ficção, especialmente quando mergulha nos meandros da história política de um país, revela verdades que documentos oficiais nem sempre alcançam. Ao humanizar personagens e reconstituir contextos, ela resgata vozes silenciadas e mantém vivas as lições que o presente tende a esquecer. Às vezes até de forma espontânea.
É sob esse prisma que a literatura cumpre seu papel mais importante: ao abordar temas esquecidos de uma forma acessível e atraente, permite não apenas lembrar, mas também alertar. Em tempos de amnésia histórica e distorções ideológicas alarmantes, romances que revisitam períodos conturbados ajudam a construir consciência crítica e – o mais importante – conduzem a reflexões que podem evitar que erros do passado se repitam.
Por isso, sob esse ponto de vista, ler não é só um ato de lazer. É um exercício de cidadania, resistência e reconexão com os elos invisíveis que nos ligam uns aos outros e ao tempo que nos formou. É, além disso, um fio de esperança num futuro melhor e mais humano.
* Publicado em 1º/7/2025, no Diário Indústria e Comércio do Paraná, Caderno 2 – Opinião
A Ponte Entre o Passado e o Presente: Como a Literatura nos Salva do Esquecimento*
Por meio de narrativas históricas, a literatura resgata memórias negligenciadas e nos alerta contra os erros do passado
A leitura não é apenas um exercício intelectual. É também uma forma de resistência, um gesto de memória que desafia o esquecimento sistemático promovido por regimes autoritários, pela indústria da informação superficial e pelo apagamento das vozes dos excluídos. Em um mundo cada vez mais acelerado, onde as pessoas consomem notícias sem profundidade nem embasamento, a literatura com viés histórico surge como um farol – aquele fio tênue que conecta o passado ao presente e nos ajuda a evitar a repetição de erros que custaram vidas, liberdades e dignidades. Vejamos alguns bons exemplos.
O Homem que Amava os Cachorros – A História Sob Vários Olhares
Leonardo Padura, em “O Homem que Amava os Cachorros”, constrói uma obra magistral que entrelaça a vida de Leon Trotsky, revolucionário russo assassinado no exílio no México, com a trajetória de seu algoz, Ramón Mercader, e com a de um terceiro personagem, o cubano Iván Cardona. Essa tríade narrativa permite ao leitor compreender, com riqueza de detalhes, o funcionamento do aparelho repressivo soviético sob Stalin e os reflexos disso na Cuba pós-revolucionária.
O leitor é brindado com uma narrativa clara, precisa e envolvente, pois Padura vai além da história oficial: ele humaniza figuras historicamente polarizadas, revela nuances ideológicas e mostra como sistemas políticos podem transformar indivíduos em instrumentos de opressão. Sua prosa investigativa e densa me fez refletir sobre como certos episódios são contados sempre do ponto de vista dos vencedores – e como a literatura pode devolver a palavra aos derrotados.
Uma Longa Pétala de Mar – Quando a Poesia Salva Vidas
Isabel Allende, em “Uma Longa Pétala de Mar”, traz à tona um episódio pouco conhecido da história ibero-americana: a iniciativa do poeta Pablo Neruda em organizar o navio Winnipeg para resgatar cerca de 2.000 republicanos espanhóis fugindo da vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola (1936–1939). Através da ficção, a autora constrói personagens cujas trajetórias se entrelaçam com esse momento histórico real, oferecendo ao leitor uma visão íntima e emocional da dor do exílio, da guerra e da esperança renovada.
A Trilogia de Ken Follett – O Mundo em Chamas e Nossa Lição de Hoje
Ken Follett, com sua trilogia composta por “Queda de Gigantes”, “Inverno do Mundo” e “Eternidade por Um Fio”, constrói uma narrativa épica atravessada pelas duas Guerras Mundiais e pela Guerra Fria. Com personagens fictícios convivendo lado a lado com figuras históricas reais, Follett não apenas entretece uma história envolvente, mas também apresenta ao leitor os mecanismos sociais, políticos e tecnológicos que levaram o mundo às beiras do abismo.
Ao ler essas obras, percebi como movimentos nacionalistas, fanatismos e polarizações ideológicas – muitas vezes vistos como “coisas do passado” – estão mais vivos do que nunca. A literatura histórica, então, serve como um alerta constante: olhar para trás é fundamental para não tropeçarmos nas mesmas armadilhas.
A Literatura como Antídoto para o Esquecimento Coletivo
A frase “quem não aprende com a história está condenado a repeti-la”, frequentemente atribuída a Hegel ou Marx, ecoa com força redobrada nos tempos atuais. Vivemos em uma era marcada por informações rápidas e superficiais, por discursos simplificados e versões distorcidas do passado. Diante disso, a literatura histórica se posiciona como uma espécie de antídoto: ela nos permite mergulhar fundo, a sentir na pele o peso das escolhas humanas, a entender os contextos complexos que moldaram nosso presente.
Mais do que entretenimento, essas obras são pontes de memória e consciência. Elas nos permitem ver o passado com outros olhos e, talvez por isso, possamos construir um futuro mais humano e justo.
Se queremos um mundo menos propenso a cair nos erros do passado, precisamos garantir que suas lições continuem vivas. E, para isso, nada substitui o poder da literatura.
* Publicado em 4/7/2025 no site Aventuras da História (clique aqui para acessar)

